Dos livros

SOBRE MENINAS INVENTADAS


Metáforas delicadas do cotidiano

Ana Letícia Leal mostra domínio da narrativa em 'Meninas inventadas'

por Elaine Pauvolid - In: O Globo/Prosa e Verso - 09/12/2006

'Meninas inventadas', livro de estréia de Ana Letícia Leal, é composto por onze contos que podem ser lidos como metáforas dos acontecimentos reais do dia-a-dia, aproximando-se da crônica. A obra, dirigida ao público infanto-juvenil, trata de temas como virgindade, homossexualismo, diferenças sociais e de cor de pele tendo como pano de fundo a adolescência feminina.
No conto "Nem preta nem branca", Janaína se ressente por não pertencer ao grupo formado pelas pessoas de pele negra e nem ao de pessoas de pele branca, pois, segundo ela, situar-se-ia no meio caminho entre um e outro, queixando-se da denominação parda que traz na certidão de nascimento. Outro conflito é não ser rica nem pobre. Filha de professores e bolsista no colégio, sente-se pobre. Também não se insere no grupo dos pobres, que a acham rica. Nem uma coisa, nem outra, coloca-se numa espécie de limbo. Janaína também se mete numa enrascada ao ter que escrever uma redação porque, entre um pensamento e outro, vive se perdendo.
Todos os personagens principais são mulheres e se encontram. Enquanto num conto são protagonistas, em outro elas tornam a aparecer citadas apenas como amigas ou conhecidas. Na verdade elas se recontam. Sob novo prisma, ganham profundidade e se ligam uma a outra. Como na brincadeira de papel, onde, depois de dobrado, recorta-se uma boneca para em seguida desdobrá-lo e ver surgir várias bonecas de mãos dadas.
Em textos recheados de humor, Ana Letícia também mostra perícia no manejo da técnica do conto e da crônica e revela o dom de levar o texto num aparente silêncio.
A obra de estréia da escritora, finalista da primeira edição o concurso Contos do Rio, promovido pelo caderno Prosa & Verso - seu texto "Sem minha filha" foi publicado na coletânea "Contos do Rio" pela mesma editora Bom Texto, em 2005 - também pode ser relacionada com o único livro de contos de Lygia Bojunga, "Tchau" (1984). Em ambas, apesar da complexidade das personagens e dos temas abordados, não há espaço para nada que não a elaboração fina dos sentimentos citados sem a 'tentativa de convencer o leitor, nem de trazer personagens a julgamento.
O conto com o qual Ana Letícia participou do concurso Contos do Rio não é de literatura juvenil, o que importa dizer que está em aberto o caminho que ela vai seguir. Seja qual for, ela mostra ter qualidades suficientes para continuar seu sucesso, independentemente da categoria literária em que seja inserida.


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