sexta-feira, 10 de maio de 2013

Memórias da 1a. edição (3 de 3)


Nova edição já nas livrarias!
 METÁFORAS DELICADAS DO COTIDIANO
Ana Letícia Leal mostra domínio da narrativa em Meninas inventadas

por Elaine Pauvolid

O Globo/Prosa e Verso
09/12/2006

        "Meninas inventadas, livro de estreia de Ana Letícia Leal, é composto por onze contos que podem ser lidos como metáforas dos acontecimentos reais do dia a dia, aproximando-se da crônica. A obra, dirigida ao público infantojuvenil, trata de temas como virgindade, homossexualismo, diferenças sociais e de cor de pele, tendo como pano de fundo a adolescência feminina.
       "No conto Nem preta, nem branca, Janaína se ressente por não pertencer ao grupo formado pelas pessoas de pele negra e nem ao de pessoas de pele branca, pois, segundo ela, situar-se-ia no meio caminho entre um e outro, queixando-se da denominação parda que traz na certidão de nascimento. Outro conflito é não ser rica nem pobre. Filha de professores e bolsista no colégio, sente-se pobre. Também não se insere no grupo dos pobres, que a acham rica. Nem uma coisa, nem outra, coloca-se numa espécie de limbo. Janaína também se mete numa enrascada ao ter que escrever uma redação porque, entre um pensamento e outro, vive se perdendo.
          "Todos os personagens principais são mulheres e se encontram. Enquanto num conto são protagonistas, em outro elas tornam a aparecer citadas apenas como amigas ou conhecidas. Na verdade elas se recontam. Sob novo prisma, ganham profundidade e se ligam uma a outra. Como na brincadeira de papel, onde, depois de dobrado, recorta-se uma boneca para em seguida desdobrá-lo e ver surgir várias bonecas de mãos dadas.
        "Em textos recheados de humor, Ana Letícia também mostra perícia no manejo da técnica do conto e da crônica e revela o dom de levar o texto num aparente silêncio.
          "A obra de estreia da escritora, finalista da primeira edição do concurso Contos do Rio, promovido pelo caderno Prosa & Verso - seu texto Sem minha filha foi publicado na coletânea Contos do Rio pela mesma editora Bom Texto, em 2005 - também pode ser relacionada com o único livro de contos de Lygia Bojunga, Tchau (1984). Em ambas, apesar da complexidade das personagens e dos temas abordados, não há espaço para nada que não a elaboração fina dos sentimentos citados sem a tentativa de convencer o leitor, nem de trazer personagens a julgamento.
          "O conto com o qual Ana Letícia participou do concurso Contos do Rio não é de literatura juvenil, o que importa dizer que está em aberto o caminho que ela vai seguir. Seja qual for, ela mostra ter qualidades suficientes para continuar seu sucesso, independentemente da categoria literária em que seja inserida."