sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O retorno de Antônia


No verão é mais difícil escrever. O verão chama o corpo pra fora de casa, a alma quer a praia, a pele pede outras peles. No verão de 2011, principalmente, estive muito cansada desta vida aqui dentro. Eu já ia até mesmo saindo pela porta, quando alguém me puxou pelos cabelos: “Me tira urgente deste rascunho!”. Era Antônia, protagonista do primeiro livro que escrevi, o Para crescer (Escrita Fina, 2010). Fiz sua vontade: não saí para escrevê-la mais. Fazia tempo que eu não escutava Antônia. Demorei alguns dias até sintonizar meu ouvido com sua voz. Quando finalmente consegui...
 
— Esta noite rolei na cama e dei com você já adulta. Estranhei, Antônia. Pensei que você passaria a vida toda com seus 17 anos.
— A vida toda? Não! Só no Para crescer. Quando deixei a cena do orfanato, eu não podia mais esperar. Estava doidinha pra realmente crescer!
— Quem diria que o Para crescer ficaria na gaveta...
— O jeito foi eu crescer dentro dela...
— Na gaveta?
— Eu não podia outra coisa. Se eu queria viver, eu tinha que imaginar. E você tinha me deixado com um desejo de viver muito forte. Você tinha me feito quase querer morrer para finalmente decidir pela vida. A gente não contava com o engavetamento e foi isso o que me desafiou. Veja: o que eu podia fazer como personagem, se minha história ainda não se fizera conhecer? O que eu podia fazer na antessala da leitura? Como personagem, haveria jeito de eu seguir com a minha história? A solidão. No engavetamento a solidão é impressionante. Eu não tinha acesso a ninguém. Você me terminou e eu me perdi da Isadora, do meu pai e de todos. Aliás, eu nem sabia da gaveta. Eu pensava que talvez estivesse louca ou em coma ou morta. Eu pensava que o mundo podia ter acabado realmente. Eu pensava um monte de coisa misturada, talvez fosse um sonho, eu não sabia, mas eu precisava me manter viva para chegar a saber, eu precisava dar conta do tremendo desejo de crescer com o qual você me deixou. Até hoje eu me pergunto o motivo de você já não me ter feito crescer dentro da história do primeiro livro, mas enfim, eu disse “corta” para que Isadora desligasse a câmera e caí num pesadelo onde só eu existia e cuja saída só eu poderia achar; eu acreditava na saída porque você me fez uma personagem de fé. Eu acreditava, e se ainda não via sinal dela, podia esperar, por que não? Então me concentrei vivamente na imaginação que você me deu:

11 comentários:

  1. Curioso como nossos personagem gritam para ter vida. Lembro que minha Luísa ficou anos sussurrando que eu a escrevesse, até que surgiu o primeiro diálogo. Eu já sabia o que ela comia, as músicas que ouvia, uns jeitos de encarar o mundo...
    Eu adoro a Antônia! Li de um só fôlego teu "Para crescer". Lembro que ia dar de presente para uma adolescente, e fiquei para mim :)

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  2. Cresce o personagem, cresce o autor. Não?

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  3. Muito bom! Realmente o verão imprime uma moleza no corpo e na alma.

    Ana Maria

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  4. Bonito. Ontem andei revisitando coisas que escrevi aos 17, 18, 19 anos e me deparei com algumas interessantes. Se tiver coragem, posto.

    Claudia Madureira de Pinho

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  5. Adorei! Fiquei com muita vontade de ler. Pena já não ter comprado. Também fiquei com vontade de escrever sobre um passado que insiste me rever. Na verdade comecei a alguns minutos antes de ler este texto do seu blog. É acho que seu curso me apresentou uma pessoa que eu mesmo não sabia que existia: Eu! Beijos, obrigada, juliana

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  6. Oi Ana, é muito bom ler vc.
    Dá vontade de mais, sempre.
    Obrigadíssima
    wanda

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  7. como pode uma personagem sair da gaveta e puxar a autora pelos cabelos? continue minha história! o blog da ana letícia é generoso com seus ex alunos. ana letícia tem coragem.

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  8. Oii Ana Letícia! Eu estudo na Escola Alemã Corcovado e estou no 9o ano. Li o seu livro "Para Crescer" e gostaria muito de saber em que ou quem você se inspirou, ao criar a personagem Antônia. A personagem é muito interessante e o livro também, pois a história permite uma reflexão dos leitores. Está de parabéns!
    Beijos, Julia Roliz

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    1. Olá, Júlia, obrigada.

      Eu me inspirei sobretudo nos meus próprios sentimentos durante a adolescência, que foi um período muito sofrido pra mim. Eu não escreveria um romance autobiográfico e a vida da Antônia não tem nada a ver com a minha, inclusive perdi minha mãe já adulta e nunca fui rica, rs. Porém eu queria escrever sobre o sentimento de perda e procurei criar uma personagem que tivesse tudo, pra poder perder tudo. Acredito que na ficção a gente acentue traços da vida real, tipo: minha vida daria uma história sem graça, eu tenho que exagerar nas tintas pra dizer algo a mais.

      Fora isso, acrescentei à Antônia características dos adolescentes da época em que eu escrevia (eu tinha 29 anos, foi em início de 2000). Inclusive dei uma passada na Cantão, que era a loja mais badalada pra essa faixa etária, e observei o que ela poderia vestir. A menina de jardineira, que a Antônia vê entrando no colégio, eu vi da minha janela enquanto escrevia o livro...

      Enfim, Júlia, o livro é feito dos sentimentos mais arraigados e também dos relances mais cotidianos.

      Beijos.

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