sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A solidão do escritor



Certa vez, numa aula na Estação das Letras, uma pessoa interrompeu minha sugestão para construção de enredos com uma pergunta. Queria saber se não seria melhor, em vez de pensar sobre as possibilidades da história, “fazer como Lygia Bojunga, que conversa com os personagens”. 
É verdade que Lygia simula conversas com personagens, que contam suas histórias. Acontece com Carolina (Retratos de Carolina, de 2002), Ana Paz (Fazendo Ana Paz, de 1992) e até mesmo com “o leitor” (em diversos momentos da obra). É verdade também que ela não é esquizofrênica, tampouco médium. Lygia Bojunga é uma encantadora de leitores e, como tal, precisa trabalhar sozinha na construção de enredos.
Muitas vezes fui trabalhar angustiada com os apelos de Odaísa. Protagonista de um conto que escrevi em 1996, ela me assombrou por pelo menos quatro anos. Odaísa reclamava por ter sido criada para morrer. Seu conto se chamava “O primeiro dia”. Tratava do seu primeiro dia de trabalho como manicure. Ao sair do salão de beleza, ela morria atropelada. E o conto acabava. Mas Odaísa não.
Odaísa passou a me aguardar diariamente à mesa do café da manhã. Quando eu chegava à cozinha, me interpelava, indócil: “Por que preciso morrer? Eu quero viver!” O jeito foi dar a ela uma fala em Para crescer, livro escrito em 2000 e publicado pela Escrita Fina dez anos depois. Desde que Odaísa fez uma ponta no último capítulo, nunca mais me assombrou.
Em 2009, porém, passei a ser assombrada pela protagonista do livro, Antônia. E de tão assombrada passei a encará-la. Hoje, Antônia anda escrevendo à beça. Citei uma parte do seu segundo livro na última crônica, sobre o que comentou a amiga-de-Facebook Claudia Fernandes Batista: “Parece mágico o modo como o processo criativo se apresenta... ou será que tem algo de paranormalidade aí, já que somos deliciosamente assombrados por nossos próprios personagens?”.
Lygia criou uma cena emblemática da delícia que é nos deixarmos assombrar pelos personagens que criamos. Não queremos acender a luz, assim como Dom Quixote manteve os olhos vendados na antológica cena do carrossel. Porém não nos enganemos: trabalhamos em completa solidão.
—Como é que pode, Ana Paz?
—O quê?  
—Eu sei que você é inventada, mas eu tô sentindo a tua pele aqui na minha mão, como é que pode?!
—É porque tá escuro.
—É uma sensação esquisita, eu não gosto, acende essa luz de uma vez!!
— Eu não. Pensa que eu não sei que você tá me sonhando? Se eu acendo a luz você acorda e eu acabo. 
(Bojunga, Lygia. Fazendo Ana Paz. Agir, 1992, p. 39)

Um comentário:

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