sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dor de garganta



— Ludmila, mil desculpas pelo atraso! Você chegou na hora?
— Relaxa, Janaína, é sua hora de almoço!
— E que papelada é essa?
— Aproveitei esse tempinho pra estudar. Quero muito entrar pra equipe da pesquisa.
— Claro que vai conseguir! Uma bolsa de iniciação científica em Psicanálise é a sua cara! Quando é a prova?
— Semana que vem. Mas, sabe, estou pensando em incluir esse caso no meu pré-projeto. Já que o foco é o bullying, esse escândalo bem agora parece um bom material. São tantas matérias saindo, opiniões precipitadas...
— Por isso te chamei aqui. Estou me sentindo em falta com esse menino... Tenho que me manisfestar, fazer a minha matéria.
— Do seu ponto de vista: uma repórter que no passado se sentiu discriminada... Que bom que você conseguiu o estágio, linda!
—E eu já falei com o editor de comportamento sobre o caso Edu. Ele disse que só publica meu texto se tiver um diferencial, porque já tem saído muita coisa...
— Logo que ouvi sobre o caso me lembrei de você. Muita gente do nosso colégio também deve ter feito a ligação.
— Mas eu não era discriminada, eu me autodiscriminava...
— ...
— Ludmila, o que você pensa do bullying? Por que há alguns anos se falava em discriminação, preconceito, mas não em bullying, algo que hoje parece tão frequente?
— Pelo que tenho lido, o bullying escolar nasceu com a própria escola. Dizem que nunca existiu escola sem bullying. Se bem que não sei se sempre existiu esse nome... Mas somente há uns trinta ou quarenta anos, alguns casos passaram a mobilizar especialistas europeus.
— Então demorou bem pra essa ideia chegar ao Brasil... Tem o quê? Uns dez anos?
— Menos. Mas vamos falar concretamente?
— O caso Edu!
— Menino tímido e negro, num colégio de classe alta, na zona sul do Rio de Janeiro. Vivia isolado, e seu rendimento escolar era bom. Quando iniciou o Ensino Médio, com a entrada de alguns alunos novos, finalmente fez uma amiga, Nanda. Uma menina também negra, ou melhor, mulata, com quem provavelmente teve um envolvimento amoroso. Foi só os dois passarem a andar juntos, que se espalharam os cartazes pelos corredores: caricaturas de macacos, um macho e uma fêmea, fazendo charme um pro outro; fotografias retiradas da internet de macacos se acasalando, pixações do lado de fora do colégio...

(Este é o trecho inicial da minha novela juvenil Dor de garganta, que integra a coleção Era uma vez o bullying – Editora Garamond, 2012)

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