sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Escrever pra crianças e jovens (4/4)

Desde que publiquei Meninas inventadas, em 2006, de vez em quando alguém me perguntava pela continuação. Nunca tinha pensado em continuar nada, pra mim os contos eram aqueles e pronto. Até achei graça quando a Anna Junqueira, vendedora em uma livraria, me falou de uma leitora que chegou pedindo a tal continuação, certa de que havia. Anna, fã do livro, morreu de pena e veio tirar satisfação, como eu não fazia o volume dois? Eu até gostaria, mas cadê a inspiração?

Passei inclusive alguns anos sem escrever para jovens, até receber o convite da Cris Amorim. Organizadora de uma coleção abordando o bullying escolar, contratada pela editora Garamond, ela me chamava a participar. Eu nunca havia escrito um livro por encomenda e esperei as exigências de forma e conteúdo que me fariam recusar o convite. Porém elas não vieram. Cris me pediu, simplesmente, uma novela para jovens a partir de 12, 13 anos, que abordasse o bullying escolar pelo preconceito racial. Encomenda bem aberta, a não ser pelo prazo, de apenas dois meses... Vivo mesmo de trabalhos temporários e o convite chegava justamente num mês em que eu teria tempo... Aceitei.

Cris me ligara no final de uma manhã de sábado, o que se justificava pelo prazo apertado. E eu, que há anos não escrevia um texto juvenil, passei a trabalhar no novo texto no ato de desligar o telefone. É curioso como os estímulos à criatividade variam na superfície.  Podem até ganhar a forma de uma encomenda urgente. No fundo, porém, não variam tanto. Ocorre que guardamos textos potenciais conosco e eles precisam de um estímulo, interno ou externo, para se realizarem.
           
Inspirada pela associação livre e intensa que o telefonema da Cris despertou, me detive numa imagem velha conhecida e muito querida, o rosto indefinido da Janaína, de Meninas inventadas. No conto “Nem preta, nem branca”, ela tinha 15 anos e sofria por ser mulata e viver no meio de brancos. No sábado da encomenda, Janaína ganhou três anos, entrou pra faculdade de Jornalismo e se impressionou com a violência contra Edu, o menino que estampa a capa do meu novo livro, Dor de garganta (no prelo).

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Escrever pra crianças e jovens (3/4)


. Já o Maria Flor, que foi publicado pela Escrita Fina no ano passado,  escrevi como um conto. Em 2003, levei-o pra uma oficina de contos com a escritora Ana Miranda, no Intituto Moreira Salles do Rio. Ela então me sugeriu transformar numa poesia, pela construção do texto era só ir quebrando as linhas. Segundo ela, ficaria um livro infantil lindo, elogios não se esquecem: “a dicção é perfeita”, me disse. Na hora, porém, não gostei da ideia. Meses ou anos depois, fiz o que Ana havia sugerido: fui “dando enter” e a prosa virou poesia. Mesmo assim, continuei achando que era um texto muito adulto pra ser publicado como infantil.

. Quando eu soube que Maria Flor seria publicado num livro infantil, fiquei achando o texto super infantil. Me lembrei de como, em criança, eu não me ligava somente no conteúdo, mas na sonoridade também. Passei a achar que o livro podia ser lido pra criança de três anos e que seria lido por crianças recém-alfabetizadas. Fiquei super feliz, claro que pela minha história de leitora eu sempre tinha querido muito publicar um texto infantil e cheio de ilustrações lindas. Meu sonho primeiro sempre foi publicar livros infantis.

. Então, depois de pensar que o texto era adulto, pensei que fosse para a partir de três anos, meninos e meninas. Minha editora Laura Van Boekel classificou para a partir de oito. E eu, no momento, penso que ele está bem assim, mas o inseri num original “adulto”, em busca de editora.

. Você, leitor, avalie pela primeira estrofe:

Meu nome era só Maria.
Mas desenhei uma flor depois do segundo a,
passando a me chamar Maria Flor.
Sempre gostei de flor porque nasci na primavera
e, a bem dizer, não sei em que dia vim ao mundo,
mas ficou feito de conta
que foi no dia em que vó Preta me achou.
Ela estava regando o jardim,
quando ouviu o meu chorar.
Euzinha, nua de todo e por demais ensopada,
era capaz de morrer sufocada
por água mais terra mais flor.[1]



[1] LEAL, Ana Letícia. Maria Flor. Escrita Fina, 2011.