quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Escrever pra crianças e jovens (2/4)


. O mercado chama de literatura infantojuvenil tudo que é livro destinado a crianças e jovens. Mistura textos de autores consagrados com livros que ensinam a ver as horas ou prometem ajudar a resolver conflitos emocionais. Misturam contos de fadas em texto integral com adaptações toscas. Tem ainda livros que se desdobram como castelos em tons de rosa, num projeto gráfico belíssimo acompanhado de um texto incipiente. E textos originalmente “adultos” publicados de forma especial.

. As divisões por faixa etária são necessárias para o mercado, mas a literatura pede que o leitor desconfie sempre. Desconfie da divisão feita por uma livraria ou editora. Leia e decida.  Porque muitas vezes a pessoa que escreveu não pensava numa faixa etária.

. Meus dois livros juvenis, Meninas Inventadas e Para Crescer, fiz totalmente com um endereço em mente. São livros sobre meninas adolescentes, para meninas adolescentes e escritos por uma menina adolescente. Mas o Meninas Inventadas me surpreendeu, os adultos amaram. Lembro de como um economista de 60 anos veio elogiar o livro e também uma senhora de 90.  

. Uma imensa decepção que tive na vida foi não ter incentivo pra publicar o que escrevi pra crianças. Eu achava que tinha nascido pra escrever pra crianças, mas recebi uma dúzia de respostas negativas. Diziam coisas do tipo “você não escreve sobre os temas que estamos buscando no momento” ou “buscamos textos de estrutura mais simples e vocabulário acessível aos primeiros anos do Ensino Fundamental”.

. Uma imensa alegria que tive na vida foi em julho passado, quando meus sobrinhos vieram de férias, do Norte. João Filipe, de sete anos, me abordou: “Tia, posso ler uma história pra senhora?” E leu um conto inteiro do Oscar Wilde, na edição em papel bíblia, da Nova Aguilar. Sim, aqueles bem grossos, de capa dura e muitas centenas de páginas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Escrever pra crianças e jovens (1/4)


. Foi no ano passado, em mesa-redonda sobre literatura infantojuvenil. A pesquisadora questionava como Lygia Bojunga e Bartolomeu Campos de Queirós podiam “reproduzir a voz da criança”. Já que ambos seriam adultos, na opinião dela.
. Minha gata Clarice começou a escrever cartas pra continuar a amizade com meu sobrinho João Pedro, que morava longe e tinha vindo em férias. Tomou gosto pela escrita e foi em frente.
. Quando digo que Clarice escreve a partir das conversas comigo, falo a verdade, pois invento isso o tempo todo. Falo de uma criança que trago comigo e a quem tenho dado bastante atenção.
. Leu alguns poemas da Adélia Prado pra filha de menos de dois anos. A menina prestou a maior atenção. É uma criança agitada e ficou quieta, ouvindo. Depois, mexia no livro, balançava, como se procurasse o que tinha dentro. Estava intrigada.
. Do ponto de vista do mercado, a literatura infantojuvenil contempla uma larga faixa etária, que vai desde os três até os 13 anos. Ou melhor, desde “a partir” dos três até “a partir” dos 13 anos.
. Eu não dava bola pras divisões dos textos em faixas etárias até trabalhar como vendedora da seção infantojuvenil de uma livraria grande. Lá, entendi que, pra quem conhece os livros e sobretudo gosta deles, é simples escolher o que levar pras crianças. Principalmente se conhecer, além de livros, as crianças que serão presenteadas. Mas pra maioria é completamente impossível ter noção do que escolher em meio à imensidão do estoque. Por isso é importante que as editoras e mesmo as lojas apresentem uma divisão por idades.
. Mas por que a SM publicou Tempo de Voo, do Bartolomeu Campos de Queirós, como literatura juvenil? Esse tipo de coisa acontece muito e afasta o livro do seu verdadeiro público. Não é?