terça-feira, 28 de agosto de 2012

O que é autoficção? (2)


— Acabei me inscrevendo na oficina de autoficção! Cliquei bem aqui à direita e resolvi tudo com a Estação das Letras!
— Que bom! E... onde mesmo que a gente parou?
— No último post, te perguntei o que era autoficção. Você explicou meio mais ou menos e terminou dizendo que no post seguinte ia me explicar o que faz na oficina.
— Bom... De tudo o que tenho lido sobre autoficção, o que mais me orientou foi o livro do francês Vincent Colonna. Ele me estimulou a tomar a autoficção como um instrumento de leitura.[1] É dessa forma que tenho usado a ideia de autoficção nas oficinas: como um instrumento de leitura literária. Mais ainda: um instrumento da leitura que busca o narrador, que pontua a construção do personagem do narrador. No livro de um autor brasileiro contemporâneo, que varia de uma turma a outra e, sobretudo, nos textos escritos pelos alunos.
— Li um lance assim na ementa... Lá diz também que você passa exercícios através das leituras feitas durante o curso... Não imagino como podem ser tais exercícios... Olha só: me inscrevo numa oficina de contos, o professor me pede que escreva contos; numa oficina de literatura infantil, um texto pra crianças. Mas você disse que não trabalha a autoficção como um gênero... O que é afinal que vou escrever na oficina?
— E eu que sei?
...
...
— Você explicou o uso da autoficção na leitura. Mas e na hora de escrever? Como escritora, o que tem sido a autoficção pra você?
— Bom... Uma vez eu disse uma coisa em aula que talvez te responda... Foi sobre o conto “A troca e a tarefa”, da Lygia Bojunga. Está no livro Tchau. Eu disse que a narradora se tornava escritora para dar um tratamento literário à dor.
— Um tratamento literário à dor? Acho que estou quase sacando o que você chama de pontuar o trabalho do narrador...
— Pra mim, pelo menos por enquanto, a autoficção está no exercício da escritura, não num resultado que corresponda a uma ou outra forma narrativa. Por isso eu não tenho a menor ideia do que você vai escrever. 
— Saquei!
— Nosso espaço acabou de novo! 
— Valeu!




[1] Prise au sérieux, dotée d´une extension et d´une compréhension conséquentes, reformulée dans ses principes et ses moyens, cette mythomanie littéraire devient un instrument de lecture prodigieux. Tour à tour macroscope et microscope, elle permet de reconsidérer de phénomènes d´écriture apparemment marginaux, de découvrir des plaisirs littéraires inconnus, des émotions inédites. (COLONNA, Vicent. Autofiction & autres mythonanies littéraires. Éditions Tristam, 2004. p. 13)


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