sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O que é autoficção? (1)


— Inscrições abertas para minhas três oficinas na Estação das Letras: de contos, de memórias e de autoficção. 
— De contos e de memórias tudo bem. Mas de autoficção? Como assim?
— Na verdade, a de memórias também acaba sendo de autoficção, a diferença é a dinâmica das aulas. Meus cursos na Estação tem-se transformado comigo. A oficina de memórias, que dou junto com Marcia Cristina Silva desde maio, é um desdobramento da de autoficção, que já fez quatro anos.
— Não sei o que é autoficção. Me explica?
— Talvez eu também não saiba.
— Está brincando?
— Talvez sim. O fato de eu ter criado uma oficina de autoficção significa menos que sei o que é autoficção e mais, muito mais, que também estou querendo saber. A palavra “autofiction” foi criada em 1977, classificando um romance do francês Serge Doubrovsky, cujo protagonista tinha seu próprio nome e outras semelhanças biográficas. Para o autor, que criou a expressão, “autoficção” seria uma variante pós-moderna da autobiografia. Na mesma linha, Arnaud Genon declarou ser um gênero derivado da prática autobiográfica, impossível no século XX.
— Impossível por quê? Há tantas autobiografias à venda!
— Mas, num passado recente, o autor supostamente detinha a verdade sobre a própria vida, que transmitia aos leitores. Hoje em dia, já lemos uma autobiografia como uma visão ou versão.
— Então as oficinas servem pra se escrever uma versão da própria vida?
— Não! Desde Doubrovsky, “autoficção” adquiriu um significado bem mais amplo e tem sido alvo de definições diversas e até contraditórias...
— Resumindo, Ana. O que é autoficção PRA VOCÊ?
— Não penso a autoficção como um gênero literário, mas como algo que diz respeito à nossa existência neste mundo. Pra mim, a autoficção é um estilo de existir. Resulta do desejo consciente de se ter uma identidade, sabendo que a identidade é construída dia a dia, pelas ações que se toma.
E a literatura com isso?
A literatura é uma manifestação desse estilo de existir. Uma das manifestações possíveis.
Nesse sentido, toda literatura seria um exercício de autoficção?
Não todas, muitas.
— Ótimo. Tudo isso é belo e instigante. Mas você ainda não me explicou como faz uma oficina literária disso.
— Te explico na próxima postagem, que o espaço acabou. Mas clica logo no alto à direita e reserva seu lugar!

2 comentários:

  1. ana letícia: obrigado pelo email. quando pude participar de sua oficina de autoficção no final do ano passado, gostei muito. as vezes penso que e assim, a gente é a invençao da gente. billler.

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  2. ontem à noite e agora de manhã trouxeram de volta o o quê é auto-ficção, coisa que pelo seu curso virou um assunto a se pensar volta e meia. primeiro foi a foto postada pela sobrinha no facebook, mostrando a tatuagem no ombro, a mesma que o avô traz nas costas da mão desde que era jovem soldado. respondi, animado, que legal, há tempos quero fazer uma igual, vou fazer agora. emendei, bobo, a máxima 'a pele da gente é prá escrever quem a gente inventa ser'. agora, segundo, numa coluna da caros amigos, um historiador lembra de um conto de dostoievski, 'uma história lamentável', que lembra que 'o verdadeiro homem não é o que acredita ser; suas idéias, por mais avançadas, não suprimem o que é no fundo: egoísta, movido por sentimentos elementares'. acrescentou ainda o colunista um dito atribuído ao fernando pessoa, 'sou quem falhei ser, nossa realidade é o que não fomos nunca'. minha nova tattoo seria só cópia de um golpe de adulação da neta, pelo filho invejoso? bllr.

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