quinta-feira, 19 de julho de 2012

Outra casa muito engraçada


(desde 1993)


      A casa era branca e não tinha chão; não era uma casa, propriamente. Era uma coisa gostosa de imaginar, era um brinquedo bom de se ter. A casa branca era um desenho de Maria Teresa.

      Maria Teresa caprichava uma telha ali, a maçaneta da porta acolá, um dia encrencou: “A minha casa é uma palhaçada. Esta porta não abre, desta chaminé não sai fumaça. Se eu desenhasse bem, ia fazer a parte de dentro da casa e até alguém para morar nela. Assim, ela não serve pra nada!”

      A casa desenhada ficou esquecida dentro da casa de morar, até que Maria Teresa cresceu e a encontrou. Achou graça: não se parecia mesmo com uma casa... Faltava chão, faltava gente.


Então, absorveu que não dava mais pé. 
Maria Teresa, para sempre por um triz, observou que não tinha como. 
Não dá mais pé estar para sempre por um triz, objetou Maria Teresa. 
Quis reformar a casa branca.


Outra vez com alguns lápis de cor, 
Fez uma coisa muito engraçada: 
fez a casa sorrir e também sorriu – 
um riso que não dá para explicar. 


Maria Teresa pegou alguns lápis de cor 
e fez uma coisa muito engraçada: 
fez a casa sorrir e sorriu também; 
sorriram, a um só tempo – 
um riso que não dá para explicar. 


A casa era branca e não tinha chão;

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Pinçamentos


. Quem gostar de morrer que  me leia. Aos outros, os sabonetes.
. Eu quero que você me leia; não só pelo verso bonito, mas também pelo reverso esquisito.
. Você pode escrever corretamente, seguir receita. Mas, se não descobrir o seu jeito, não será literatura.
. Reinvente a sua vida: escreva um livro de memórias.
. Escrever está do lado das perguntas, as respostas não importam.
. Quando escolhi escrever, estava disposta a me assumir movida pelas perguntas. Eu pergunto, me pergunto e me ponho em pergunta.
. Em geral, minhas narradoras meninas contam em primeira pessoa. Elas são meus desdobramentos, minhas possibilidades. Tudo o que tenho escrito é isso.
. Guardo diários há trinta anos. Relendo-os, vejo que minha voz varia de um a outro personagem.
. No meu diário, eu sou mais eu? Na ficção, eu não sou? Eu sou o que eu digo ser?
. A autoficção é a coexistência disfarce/corpo. São indissociáveis.
. O texto esconde/revela o escritor.
. Ora penso que não existe o corpo, somente o disfarce; ora acredito na existência de alguém dentro da roupa.
. Em Desengaveto-me, o fundamental é a costura exposta. O texto é carne viva.  Os vazios são a razão da narrativa.
. Meu Deus é a força que tende para a vida, a solidariedade e a literatura. Força em permanente tensão com a vontade de morrer, de nada ser ou fazer. O mais é modo de viver em risco.
. Comecei a Antônia, de Para crescer, numa perspectiva de senso-comum, seguindo para acontecimentos que desconstruíssem o mundinho dela. Então, procurei apontar para uma perspectiva mais verdadeira.
. Nasci  com muitas palavras. Sempre palavras de mais e vida de menos. Escrevendo, corto palavras.
. Meu Projeto Básico é a literatura.
. Tentar fazer com que a palavra chegue aonde a palavra não chega. Não ceder ao discurso alheio. Desconfiar sempre.
. Dentro de mim, a palavra suplica: transmita-me!
. “Não se deve publicar a própria crise”, me aconselhou há vinte anos. “Com o tempo, vem o tempero literário”, completou.
. Personagens que perdi. Depois de muitas tentativas, a Danielle caiu na caricatura e perdeu a vida. Odaísa idem.
. Quero o colar que não está. Por isso não sei se devia escrever telenovela, como tanto já quis.
. Foi impressionante, Antônia. Parei uns dias para ouvir sua voz, eu sentia que você me diria algo importante. Finalmente ouvi sim, mas a voz da sua mãe. Ela me disse que não começou nela a história que viveu. E que a participação dela ainda não terminou.
 . Escrevo para escolher as palavras que... para me refazer de palavras escolhidas. As palavras que corto? Vão para um espaço de possibilidades.
 . Escrevo para viver palavras novas.