sexta-feira, 22 de junho de 2012

Que não cheguei a conhecer (2)


(desde 1992)

Margot bebeu água e então não fez mais nada porque não sabia o que poderia fazer de bom e bebeu um cálice de vinho e achou o gosto normal e então voltou a não fazer nada foi portanto que ficou olhando a janela e nada acontecia na frente de sua casa que merda pensou e imaginou que talvez fosse bom telefonar para alguém e chateou-se ao não saber para quem ligar o problema era que Margot não sabia qual era o problema talvez não fosse nada e apagou a luz e dormiu o sonho de quem precisa sonhar para dar tempo ao tempo.
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Heloína brigou com o marido e o marido achou tão engraçada a raiva de Heloína é que ele estava bêbado foi então que apareceu o filho dizendo é impossível dormir com esta gritaria mas Heloína não queria saber de marido nem de filho só queria voltar a ser aquela que talvez tivesse sido se as coisas tivessem ocorrido de uma maneira diferente. O filho, o marido, Heloína.
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Helena desistiu de esboçar seus castelos no ar. Nada acontecia e, abandonando a ironia, Helena deixou-se levar: eis uma história fora de questão. Era um dia sem calor. Também não fazia frio e, portanto, ali permanecia Helena: existindo sem alegria. Esta história passar-se-ia em um castelo cor-de-violeta. Era uma manhã sem luz e não havia ninguém – um castelo. Helena andava sem percorrer caminho, ao deparar com a nobre paisagem. Um castelo cor-de-violeta, uma mulher que vagueia sem desejo: jaz uma história sem paixão. Jaz Helena, acontece: não chegar a existir.
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Maria Eulália abre a cortina tentando ver alguma coisa. Carolina não vê o tempo passar. Quantas vezes Sofia ainda viveria a náusea de gente que não suporta? Maria Eulália precisa ver alguma coisa para se distrair, Carolina precisa se entediar para que, Sofia não anda muito bem, que personagens chatas.
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Não haverá acontecimento que supere a beleza da experiência vivida por Beatriz. No dia em que sua mãe morreu, trancou-se em seu quarto para dali sair jamais. Sufocando sua existência entre quatro paredes, Beatriz se permanecia deitada e pensativa. Pensando no luxo que seria seu futuro caso se animasse. Inanimada, porém, não comia, não se penteava. Bonita e jovem, Beatriz devaneava e logo morreria. Em noite enluarada sua mãe chegou para o acalanto, levando a filha para o céu. O médico diagnosticou que Beatriz morreu de fome. Coitado do médico.

             


sexta-feira, 8 de junho de 2012

No tempo da amarelinha



(desde 1993)

Maria Chiquinha e Maria Laço de Fita pulavam amarelinha. Maria Chiquinha de saia cor-de-rosa. Maria Laço de Fita de vestido azul-celeste. “Que cores será que as calcinhas delas têm?”, pensava João Gargarejo ao vê-las, distraídas, durante o recreio.

Maria Laço de Fita e Maria Chiquinha pulavam amarelinha. Maria Chiquinha de covinhas nas bochechas. Maria Laço de Fita com uma pinta no pescoço. “Que tipo de garoto será que os olhos delas gostam de olhar?”, pensava João Fundão, ao observá-las saltitantes e insinuantes.

Maria Laço de Fita e Maria Chiquinha pulavam amarelinha. Elas fingiam que não percebiam o alvoroço dos colegas no momento em que se abaixavam para pegar a pedra. Na aula de matemática, João Gargarejo, sentado à primeira fileira, concluía que a soma de duas Marias resultava em uma tremenda vontade de comprar dois bombons – um para Laço de Fita e outro para Chiquinha. Já João Fundão, que se encostava ao fundo da sala, atormentava-se, ponderava, mas não sabia o que fazer. “O que será que elas achariam se eu me oferecesse para brincar com elas?”

Maria Laço de Fita e Maria Chiquinha, no dia seguinte, pulavam amarelinha. Sem conseguir disfarçar a vergonha, João Fundão tentou brincar com as duas. Elas acharam muita graça, porque ele pulou um, dois, três, mas caiu antes do Céu. Durante a aula, ao fundo da sala, Fundão se arrependeu do que fez. Na saída, porém, renovou sua esperança:  Gargarejo trazia consigo O Manual da Amarelinha.

Na manhã seguinte, estudados e determinados, juntaram-se às Marias para pular amarelinha. O desastre foi terrível, nunca ninguém brincou tão mal: os garotos constrangidos, e as garotas nem aí. João Gargarejo e João Fundão jogaram o livro na lata de lixo e decidiram que nunca mais iriam olhar para Chiquinha, nem para Laço de Fita.

Maria Laço de Fita e Maria Chiquinha pulavam amarelinha. João Gargarejo não aparecia; João Fundão parece que dormia. Maria Laço de Fita e Maria Chiquinha não tinham mais vontade de pegar a pedra, portanto pararam de pular amarelinha. E o recreio perdeu a graça.

Mil recreios depois, Maria Chiquinha, Maria Laço de Fita, João Gargarejo e João Fundão deixaram a escola. Viraram Maria Luíza, Maria Fernanda, João Gabriel e João Alberto. Maria Chiquinha e Maria Laço de Fita pulavam amarelinha sem saber que faziam uma história. Acontece que o tempo, este sim – é o maior arteiro.