sexta-feira, 11 de maio de 2012

Que não cheguei a conhecer


(desde 1988)

  Enfim cometi o meu primeiro pecado. Eu sempre quis pecar e nunca soube como. Eu sabia qual era o pecado que eu queria cometer, mas nunca tinha dado de cara com ele. O pecado me apareceu na forma como eu sonhava. Mas nunca o tinha visto com tanta precisão. Quando apareceu na minha frente, o pecado, tive certeza de que ele era o meu pecado, o pecado com que eu sempre tinha sonhado: o primeiro e delicioso pecado.
  Ontem, me separei do meu marido, do meu primeiro marido. Estava com saudades do corpo dele, mas não da minha vida com ele. O meu corpo estava com saudades do corpo do meu ex-marido. Isso porque eu não sabia que estava perto de cometer o pecado: o meu primeiro pecado.
À noite, saí andando pela rua, a pensar no meu ex-marido, no meu primeiro marido. E dei de cara com ele, com o meu primeiro pecado. O meu primeiro pecado tinha a mesma cara do pecado que eu tinha sonhado umas mil vezes. Quando olhei para ele, tive certeza de que era o que me faltava: o melhor pecado.

***

          A filha não comia se não houvesse batatas fritas acompanhando um bom bife. O marido preferia as cozidas. E ela? Que luxo seria seu futuro! Preferia não pensar. Preferia não chorar. Melhor obedecer ao destino: descascar batatas. A coluna doía. O calo incomodava. Ela descascava batatas, com amor.
          (...) A partir de então descascava, com raiva, as batatas.
          (...) A mulher passou a comer sozinha as batatas - que diariamente descascava, com saudade...

***

          A imagem que insiste em ficar, dentre tantas outras, milhares, infinitas, a imagem que não me deixa mais é a dos pés que eu vi, os pés descobertos, os pés que talvez estivessem indo para o trabalho, ou vai ver que vinham de uma boa noitada. Nunca saberei ao pé da letra o que lhes acontecia, tampouco se já eram de mulher ou ainda de menina... Eu caminhava pela praia de Ipanema, um poste de luz no chão e três coqueiros arrancados, um carro retorcido e um corpo sobre o asfalto. O corpo já fora coberto com o plástico preto de praxe, mas os pés, os pés descobertos, os pés que eu vi, de uma mulher ou menina que eu não conheci.

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