sexta-feira, 13 de abril de 2012

Isabela, a bela


(desde 1998)

Isabela não tinha dez anos, quando uma notícia fez-lhe desviar a atenção
das bonecas para assuntos de mocinha.
Iria, do Rio de Janeiro, seu primo Paulo, passar alguns dias em sua companhia.
Desde pequenina, Isabela não via o primo, que já completara dezoito anos.
Sabia ser ele um belo e gentil rapaz; além, pura fantasia.
Paulo ia da cidade grande, para quebrar a rotina pacata da menina
que o amava desde pequena.

Na noite em que o primo chegaria, Isabela estava tão bela.
Com uma fita de cetim adamascado, enfeitando-lhe a fronte rosada.
Imaginava que Paulo pegaria logo a sua mão...
Ou será que, por ilustrado, declamaria uma poesia feita para o encontro deles?

Nestes devaneios encontrou-a a mãe e surpreendeu-se:
Mas o que é isso?
Há horas lhe pedi que fosse à venda e você aí, a sonhar!
Vá logo comprar o pão e as frutas.
Com pressa, pois seu primo deve estar a chegar!
A menina pegou dinheiro e sacola e saiu.

Deparando com a noite escura, Isabela encolheu os ombros, abaixou a cabeça
e pôs-se a andar, toda espremida.
E como se não bastasse o horror ao breu,
ela ouviu passos ao longe e tratou de apressar os seus.

Embora ouvisse também a voz de quem vinha,
não tinha coragem de virar-se e conhecer-lhe a tez.
Àquela hora, quem andaria atrás de uma mocinha?
Só podia ser um ladrão, querendo o seu tostão.

Permaneceu assim esta cena, até que Isabela, a bela,
sentiu que a pessoa finalmente a alcançava.
O susto foi tão grande, tão desmedida a aflição, que a menina
tropeçou, levantou voo,
deixou cair sacola para um lado, dinheiro para o outro,
e aterrissou de bruços em um canteiro cheio de espinhos.

Mas se não era justo o primo Paulo que à cidade ora chegava!
Bem que, de longe, gritara: "Prima! Prima!"
Isabela, nervosa, não compreendera e sequer percebera o barulho do ônibus,
justo no momento em que ela saía de casa!

Foi sacola para um lado, o dinheiro para outro,
mas o que entristeceu a descabelada Isabela
foi que a sua fita se partiu.

Primo Paulo, o cavalheiro, vendo o transtorno que causara,
deu a mão à prima Bela para juntos irem à venda.
Lá ele comprou, além do pão e das frutas,
uma linda bonequinha como consolo para a prima.

Tal presente foi para a bela Isabela –
o fim do mundo.

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