sexta-feira, 27 de abril de 2012

O riso da outra rosa


(desde 2000)

Eu estava saindo do meu condomínio e dei boa-noite à Rosa, minha vizinha de 12 anos.
Ela não respondeu.
Eu buzinei, e ela nem.
Olhei bem.

Era impressionante o tamanho do riso da Rosa.
Ele ia desde uma orelha até a outra, num forçar de expressão.
Por que será que ria tanto a Rosa?
Encostei meu carro e fui ao encontro dela.
Sentada em frente à entrada do condomínio, Rosa ria, mas seus olhos não.
Os olhos da Rosa nem me viam. 

O segurança me contou.
O cachorrinho da Rosa morrera pela manhã, exatamente naquele local.
Ele inventou de atravessar a rua bem quando o tio da Rosa passava de carro, a toda.
O tio, puxa, o tio ficou inconsolável.

Tanto que a Rosa, logo a Rosa, que tanto amava seu cachorrinho Pimpão
(eles eram como gêmeos ou ao menos como irmãos),
Rosa disse ao segurança que não estava nem ligando,
e que o tio, coitadinho, não precisava sofrer tanto.
Então, Rosa armou o sorrisão que não desarmava mais.
Ai, ai.

A cena era mesmo aflitiva: o riso rasgando o rosto de Rosa.
Não tinha nada a ver com um riso rasgado.
Era um riso forçado, era um riso sem graça.
Lembrava aquelas mulheres que já fizeram mil plásticas.
Rosa ia acabar ficando toda enrugada.

Ah! Uma coisa que não suporto é riso em lugar de choro!
Eu tinha que fazê-la parar de rir!
Então, dei a mão à Rosa e disse que sentia muito.
Foi batata: Rosa desatou a chorar.
Rosa parou de sorrir.
Levei-a para casa aonde sempre vou de visita. 

Faz uma semana e Rosa ainda chora muito.
Bem melhor do que se Rosa risse.
Quem já viveu sabe.

Que Rosa voltará a amar o azul do céu e do mar.
E também o branco da areia,
o condomínio em que moramos,
a mão dada de uma amiga,
o olhar de um menino
e muito que vir passar.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Isabela, a bela


(desde 1998)

Isabela não tinha dez anos, quando uma notícia fez-lhe desviar a atenção
das bonecas para assuntos de mocinha.
Iria, do Rio de Janeiro, seu primo Paulo, passar alguns dias em sua companhia.
Desde pequenina, Isabela não via o primo, que já completara dezoito anos.
Sabia ser ele um belo e gentil rapaz; além, pura fantasia.
Paulo ia da cidade grande, para quebrar a rotina pacata da menina
que o amava desde pequena.

Na noite em que o primo chegaria, Isabela estava tão bela.
Com uma fita de cetim adamascado, enfeitando-lhe a fronte rosada.
Imaginava que Paulo pegaria logo a sua mão...
Ou será que, por ilustrado, declamaria uma poesia feita para o encontro deles?

Nestes devaneios encontrou-a a mãe e surpreendeu-se:
Mas o que é isso?
Há horas lhe pedi que fosse à venda e você aí, a sonhar!
Vá logo comprar o pão e as frutas.
Com pressa, pois seu primo deve estar a chegar!
A menina pegou dinheiro e sacola e saiu.

Deparando com a noite escura, Isabela encolheu os ombros, abaixou a cabeça
e pôs-se a andar, toda espremida.
E como se não bastasse o horror ao breu,
ela ouviu passos ao longe e tratou de apressar os seus.

Embora ouvisse também a voz de quem vinha,
não tinha coragem de virar-se e conhecer-lhe a tez.
Àquela hora, quem andaria atrás de uma mocinha?
Só podia ser um ladrão, querendo o seu tostão.

Permaneceu assim esta cena, até que Isabela, a bela,
sentiu que a pessoa finalmente a alcançava.
O susto foi tão grande, tão desmedida a aflição, que a menina
tropeçou, levantou voo,
deixou cair sacola para um lado, dinheiro para o outro,
e aterrissou de bruços em um canteiro cheio de espinhos.

Mas se não era justo o primo Paulo que à cidade ora chegava!
Bem que, de longe, gritara: "Prima! Prima!"
Isabela, nervosa, não compreendera e sequer percebera o barulho do ônibus,
justo no momento em que ela saía de casa!

Foi sacola para um lado, o dinheiro para outro,
mas o que entristeceu a descabelada Isabela
foi que a sua fita se partiu.

Primo Paulo, o cavalheiro, vendo o transtorno que causara,
deu a mão à prima Bela para juntos irem à venda.
Lá ele comprou, além do pão e das frutas,
uma linda bonequinha como consolo para a prima.

Tal presente foi para a bela Isabela –
o fim do mundo.