sexta-feira, 16 de março de 2012

Deus, o amor e outras perguntas


(desde 2000)
           — Parece que eu já passei por isso, Carolina...
— De novo essa história, João?
— Mais forte.
— Nunca vi uma pessoa ficar toda hora achando que já passou pelo que está passando...
— É déjà vu.  Como quando se vê um filme pela segunda vez sem se lembrar da história. A gente vai lembrando, enquanto o filme passa. Será que somos personagens de um filme que está sendo visto de novo?
— Só se o cineasta for Deus...
— E se o nosso universo for a mente do cara que está revendo o filme?
— Você inventa cada uma! É isso que dá não rezar...
— Rezar é recurso de gente ignorante!
— E eu sou ignorante?!
— Você é ingênua, Carolina. Deus não existe!
— Existe, sim! Olha em volta.
— Meu amor, entende uma coisa: fé ou se tem ou não se tem. Eu não acredito em Deus.
— Você precisa encontrar um caminho para desenvolver a espiritualidade.
— Ai, meu saco!
— A vida deve ser muito triste assim, quando não se acredita em nada... Você acha que depois da morte acontece o quê?
— Nada.
— Credo! Por isso, vive infeliz.
— E você quer o quê? Que eu passe a acreditar em Deus para ser feliz? Eu não acredito e pronto!
— Na sua opinião, o que é a alma?
— A separação entre corpo e alma é ilusão. A alma só existe junto com o corpo. Morre o corpo, acaba a alma.
— Você já observou com atenção uma pessoa morta?
— Já.
— E então? Não teve a sensação de que dali partira uma alma para a eternidade?
— Estou meio tonto...
— Tonto?
— ...
— Nossa, João. Suas mãos estão frias! É síndrome do pânico. Você precisa de um psiquiatra!
— ...
— Síndrome do pânico é uma doença e precisa de tratamento médico!
— Síndrome do pânico, Carolina, é invenção de psiquiatra picareta.
— Já melhorou?
— Dos psiquiatras e dos laboratórios que ganham uma fortuna com remédios que passam por cima dos problemas das pessoas.
— Você está muito cansado, João. Vai ver que é síndrome da fadiga crônica.
— Você tem lido muito os suplementos de saúde dos jornais. São patrocinados pelos laboratórios.
— Que tal um psicanalista?
— Eu não acredito em psicanálise.
— Psicanálise não é religião, acredito, não acredito.
— Você sabe como a psicanálise surgiu, Carolina? Uma paciente se apaixonou por seu médico, ele ficou aturdido e viajou com a mulher, não quis mais ver a moça. Então, Freud que, além de muito vaidoso, só pensava em sexo, Freud soube disso, fez um monte de babaca se apaixonar por ele, cobrou uma fortuna de cada um e baseou a psicanálise nesse sentimento, a dita transferência. Dá pra respeitar?
— Você é um neurótico.
— E você é uma quase balzaquiana, frustrada porque sua vida não corresponde a seus sonhos de menina, um dia você achou que o mundo era um conto de fadas, Carolina, ah, mas tudo saiu errado... E, ainda por cima, namora um cara que não quer vê-la de véu e grinalda!
— Olha, João, você ainda tem muitas certezas. Espera até elas irem tempo abaixo. Então, com o rabo entre as pernas, você vai pensar: eu não sei de mais nada.
— Carolina, você vê novelas demais. Nunca vi uma pessoa com a mente tão melodramática, cafona e piegas.
—...
— Não chora, Carolina.
— Eu não sei por que namoro você.
— É. A gente não tem nada a ver.
— Será que a gente ainda se ama, João?
— Não sei...
— Nada bate no nosso namoro...
— Pois é... Nada encaixa...
— A gente briga muito!
— Está vendo, Carolina? Se Deus existe, está de sacanagem com a gente.
— Não diga isso!
— O nosso namoro perdeu a graça.
— Que pena...
— O nosso amor morreu.
— O que é o amor, João?
— Eu não sei, Carolina.
— Deve ser aquilo que tinha entre a gente...
— E não tem mais.
— Que pena!
— O amor se foi.
— Quer dizer que... Pelo menos no amor você acredita, João?
— Só descobri o amor agora, no que me dei conta da falta medonha que ele me faz.

4 comentários:

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