sexta-feira, 30 de março de 2012

Luto


(desde 1997)

  Um uísque duplo, a sala cheia, eu de um lado e você do outro. Meu olhar atravessava o barulho dos copos, buscando você; quando encontravam os seus, meus olhos recuavam com receio. Até que nosso jogo cessou: você deixou de me olhar. Eu o odiei por isso. Por mim, a festa seria eu e você. Ao som de Miss Brasil 2000, tentei atacar: lancei meus olhos na sua direção. Acompanhava cada movimento seu, mas com o olhar fora de foco (como uma pessoa costuma fazer, ao olhar para dentro de si). Peguei outro uísque.
Você resistiu muito, você é teimoso. Enfim me olhou e não percebeu amor no meu olhar vago. Bobo, tolo, traste. Vou amar você até o fim da vida. Foquei meu olhar, tentando enxergar sua alma. Cumprimentamo-nos, sorrindo amarelo. Incomodavam-me a música alta, a fumaça dos cigarros, o burburinho da multidão que nos ignorava. Esta é uma história só nossa.
De um vaso retirei uma flor e a segurei entre os dedos. Comecei a discutir com Márcia e Carlos um assunto sem interesse. A discussão esquentava entre eles, enquanto meus dedos brincavam com a rosa amarela. Percebi que meu copo se esvaziara rápido. Num sobressalto, lembrei: quando terminei nosso noivado, fui reconquistada com uma rosa amarela. Tentei ignorar sua presença, mas fui provocada: você falou com Márcia sobre um filme que viram juntos ontem. Não significo mais nada. 
Vi que acendia um cigarro e troquei de poltrona deixando a flor ao lado do cinzeiro. Tonta e de coração disparado, presenciei: não notando cinzeiro nem rosa, você tirou alguém para dançar. Peguei mais uma dose, sou uma idiota. Daniela Mercury sacudia o salão, e você beijava uma qualquer. Filei dois cigarros seguidos. Eduardo me paquerou, esquivei-me. Vê o que você tem-me feito passar?
Retirei-me da festa e vim chorar na cama que foi nossa. Mais uma vez, recebo seu fantasma. Tornei-me uma bêbada que fantasia noites bárbaras com o ex-marido. Não fui boa para você, até que ouvi: não a amo mais; olhei-me no espelho e me vi: triste, cansada e desprezada... É. Fizemos de mim esta mulher atarantada, mas minha angústia é forte e reinventa seu carinho: a cada noite dividimos este luto, pois meu desejo é simular a eternidade prometida – pela agonia do primeiro flerte. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Deus, o amor e outras perguntas


(desde 2000)
           — Parece que eu já passei por isso, Carolina...
— De novo essa história, João?
— Mais forte.
— Nunca vi uma pessoa ficar toda hora achando que já passou pelo que está passando...
— É déjà vu.  Como quando se vê um filme pela segunda vez sem se lembrar da história. A gente vai lembrando, enquanto o filme passa. Será que somos personagens de um filme que está sendo visto de novo?
— Só se o cineasta for Deus...
— E se o nosso universo for a mente do cara que está revendo o filme?
— Você inventa cada uma! É isso que dá não rezar...
— Rezar é recurso de gente ignorante!
— E eu sou ignorante?!
— Você é ingênua, Carolina. Deus não existe!
— Existe, sim! Olha em volta.
— Meu amor, entende uma coisa: fé ou se tem ou não se tem. Eu não acredito em Deus.
— Você precisa encontrar um caminho para desenvolver a espiritualidade.
— Ai, meu saco!
— A vida deve ser muito triste assim, quando não se acredita em nada... Você acha que depois da morte acontece o quê?
— Nada.
— Credo! Por isso, vive infeliz.
— E você quer o quê? Que eu passe a acreditar em Deus para ser feliz? Eu não acredito e pronto!
— Na sua opinião, o que é a alma?
— A separação entre corpo e alma é ilusão. A alma só existe junto com o corpo. Morre o corpo, acaba a alma.
— Você já observou com atenção uma pessoa morta?
— Já.
— E então? Não teve a sensação de que dali partira uma alma para a eternidade?
— Estou meio tonto...
— Tonto?
— ...
— Nossa, João. Suas mãos estão frias! É síndrome do pânico. Você precisa de um psiquiatra!
— ...
— Síndrome do pânico é uma doença e precisa de tratamento médico!
— Síndrome do pânico, Carolina, é invenção de psiquiatra picareta.
— Já melhorou?
— Dos psiquiatras e dos laboratórios que ganham uma fortuna com remédios que passam por cima dos problemas das pessoas.
— Você está muito cansado, João. Vai ver que é síndrome da fadiga crônica.
— Você tem lido muito os suplementos de saúde dos jornais. São patrocinados pelos laboratórios.
— Que tal um psicanalista?
— Eu não acredito em psicanálise.
— Psicanálise não é religião, acredito, não acredito.
— Você sabe como a psicanálise surgiu, Carolina? Uma paciente se apaixonou por seu médico, ele ficou aturdido e viajou com a mulher, não quis mais ver a moça. Então, Freud que, além de muito vaidoso, só pensava em sexo, Freud soube disso, fez um monte de babaca se apaixonar por ele, cobrou uma fortuna de cada um e baseou a psicanálise nesse sentimento, a dita transferência. Dá pra respeitar?
— Você é um neurótico.
— E você é uma quase balzaquiana, frustrada porque sua vida não corresponde a seus sonhos de menina, um dia você achou que o mundo era um conto de fadas, Carolina, ah, mas tudo saiu errado... E, ainda por cima, namora um cara que não quer vê-la de véu e grinalda!
— Olha, João, você ainda tem muitas certezas. Espera até elas irem tempo abaixo. Então, com o rabo entre as pernas, você vai pensar: eu não sei de mais nada.
— Carolina, você vê novelas demais. Nunca vi uma pessoa com a mente tão melodramática, cafona e piegas.
—...
— Não chora, Carolina.
— Eu não sei por que namoro você.
— É. A gente não tem nada a ver.
— Será que a gente ainda se ama, João?
— Não sei...
— Nada bate no nosso namoro...
— Pois é... Nada encaixa...
— A gente briga muito!
— Está vendo, Carolina? Se Deus existe, está de sacanagem com a gente.
— Não diga isso!
— O nosso namoro perdeu a graça.
— Que pena...
— O nosso amor morreu.
— O que é o amor, João?
— Eu não sei, Carolina.
— Deve ser aquilo que tinha entre a gente...
— E não tem mais.
— Que pena!
— O amor se foi.
— Quer dizer que... Pelo menos no amor você acredita, João?
— Só descobri o amor agora, no que me dei conta da falta medonha que ele me faz.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Três poemas


(desde 1988)
 CLARA
Clara amava tanto a avó que,
quando se dava conta, esquecera que era neta,
virara irmã.

Clara amava tanto a avó que,
quando dava por si,
a diferença de idade deixara de existir.

A distância entre uma e outra era menor
que o buraco da agulha
que a avó não acertava mais.

Agora a distância é maior
que o tamanho do céu
onde a avó deve estar.

 

COF, COF, COF


Cof, cof, cof
Já estou sem ar
Cof, cof, cof
Não consigo mais parar
Cof, cof, cof
Mas que aflição
Tosse, tosse, tosse
Quanta dor no coração

 

 O RISO DA ROSA

A rosa ria demais.
Por que ria tanto a rosa?
O riso enrugava as pétalas da rosa,
as cépalas já não podiam com as pétalas,
pois a rosa não parava de rir.

A rosa ria a fim de tornar rosa
o que jamais cor-de-rosa seria.
E então a rosa riu ratos,
a rosa riu rãs.

Pobre rosa!

A rosa chora demais.
Por que chora tanto a rosa?
O choro lava os olhos da rosa,
e eu sei que ela logo amará
o azul do céu e do mar.

E também o branco da areia,
a roseira em que ela está,
um sorriso de menina,
o olhar de um menino
e tudo o que mais passar.