(desde 1995)
Não
importa o tédio da realidade, quando a porta do quarto se fecha, e a luz,
enfim, se apaga. Bela a noite que se ilumina do sonho de uma menina quase vera
mulher. No quarto de Vera, a expectativa espreguiçava-se lânguida pelo quarto.
O outro não tinha rosto nem voz, o outro era um corpo – que a menina desejava
como uma planta precisa de água.
Na festa de Natal, Carolina, de 6
anos, esperava Papai Noel. Marcelo, 10 anos, não acreditava mais no bom
velhinho e sonhava em ir a Disney conhecer Mickey Mouse. Rosa, 4 anos, comia
rabanada pela primeira vez. Seu Ronaldo, 70, conversava com a filha Bel, 42,
que não se depilava desde que começara a cultivar alface. Recém-separada,
Marlene, 33, pintara as unhas de vermelhão. A anfitriã Márcia, 40, perdera o
ponto do suflê. O anfitrião Enzo, 43, notava a falta de uma garrafa de vinho.
Vera, de 15 anos, pedira desculpas por estar com cólica e se deitara cedo.
Cessou a imaginação para dar
colorido ao escuro do quarto. A dor era urgente – porque Vera já sonhara demais.
Ela cumpria a noite sem dignidade, imersa no silêncio – lá, onde não seria
diferente. E, como imergisse no
silêncio, Vera esperava. E, como esperasse à vera, estando aquém, o tempo
traduziu-a em além – palavra. A verdade é que faltava verossimilhança à Vera.
Enquanto Vera era tudo o que não era, aguardava. E eis que, surpreendida por um
efeito mágico, inesperado, foi Vera – gargalhou ou disse amém – e,
misteriosamente, foi feliz para sempre. Até o momento em que o estômago
embrulhou, Vera pensou que fosse morrer e, vomitando o tal vinho, perdeu
definitivamente o apetite para a ceia de Natal.
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