sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Vera e o vinho


(desde 1995)

            Não importa o tédio da realidade, quando a porta do quarto se fecha, e a luz, enfim, se apaga. Bela a noite que se ilumina do sonho de uma menina quase vera mulher. No quarto de Vera, a expectativa espreguiçava-se lânguida pelo quarto. O outro não tinha rosto nem voz, o outro era um corpo – que a menina desejava como uma planta precisa de água.
            Na festa de Natal, Carolina, de 6 anos, esperava Papai Noel. Marcelo, 10 anos, não acreditava mais no bom velhinho e sonhava em ir a Disney conhecer Mickey Mouse. Rosa, 4 anos, comia rabanada pela primeira vez. Seu Ronaldo, 70, conversava com a filha Bel, 42, que não se depilava desde que começara a cultivar alface. Recém-separada, Marlene, 33, pintara as unhas de vermelhão. A anfitriã Márcia, 40, perdera o ponto do suflê. O anfitrião Enzo, 43, notava a falta de uma garrafa de vinho. Vera, de 15 anos, pedira desculpas por estar com cólica e se deitara cedo. 
            Cessou a imaginação para dar colorido ao escuro do quarto. A dor era urgente – porque Vera já sonhara demais. Ela cumpria a noite sem dignidade, imersa no silêncio – lá, onde não seria diferente.  E, como imergisse no silêncio, Vera esperava. E, como esperasse à vera, estando aquém, o tempo traduziu-a em além – palavra. A verdade é que faltava verossimilhança à Vera. Enquanto Vera era tudo o que não era, aguardava. E eis que, surpreendida por um efeito mágico, inesperado, foi Vera – gargalhou ou disse amém – e, misteriosamente, foi feliz para sempre. Até o momento em que o estômago embrulhou, Vera pensou que fosse morrer e, vomitando o tal vinho, perdeu definitivamente o apetite para a ceia de Natal. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A menina, a dor e a roupa

(desde 2000)

 De tudo o que tivera, restara-lhe a roupa do corpo e a dor, somente sua.
Com a dor e a roupa, a menina corria para longe do incêndio, que levara quase tudo.
Quanto mais corria, mais o calor das chamas queimava sua memória
e já de nada se lembrava
a não ser de que, dali em diante, seriam somente ela, a roupa e a dor, somente sua. 

A dor de ter quase tudo perdido a fazia viva.
Se não fosse a dor, nada restaria de seu senão a roupa do corpo.
E uma pessoa pode ter uma roupa igual à da outra.
Mas dor, não.
A dor dói de um jeito, que é o jeito de a pessoa sentir a dor.

A dor de ter quase tudo perdido tornava a menina esta menina.
Que corria do fogo, que levara quase tudo de seu.

Para onde ia a menina, nem mesmo ela sabia.
A menina ia,
a menina corria,
a menina era somente ela, a dor e a roupa.
Com a roupa do corpo, a dor na alma e a falta de lembrança,
a menina corria.

Até onde?

A menina parou, quando se lembrou
de outra coisa que não a dor de não ter mais quase nada.
A menina achou que vira Nossa Senhora.
“Oh, ai de mim, que me tornei uma pobre coitada que crê em alucinação.
Desde quando Nossa Senhora anda por estas bandas?
Nossa Senhora está no Céu”, disse a si mesma.

Por via das dúvidas, olhou em volta.
Pasmem! Era ela mesma.
A menina não sabia o que dizer.
Que língua Nossa Senhora fala?

Como não soubesse outro idioma que não este aqui, a menina disse “oi”.
Nossa Senhora olhou para a menina e
nos olhos de Nossa Senhora a menina viu tudo o que perdera:

sua casa,
suas roupas,
seu pai,
sua mãe,
sua irmã,
seu gatinho
e até mesmo sua boneca
que ganhara de sua melhor amiga,
a Judite.

Neste momento, choveu forte e a menina não pôde ver nada.
Então achou que era Nossa Senhora quem fazia chover
ali fora e também dentro de sua cabeça.
Pois, ao invés de ficar repetindo a tragédia das chamas,
seu pensamento passava a mostrar coisas alegres:

sua casa bem arrumada,
suas roupas bem passadas,
seu pai cortando a grama,
sua mãe assando bolo,
sua irmãzinha aprendendo a ler,
seu gatinho ronronando,
e sua melhor amiga, a Judite,
dando de presente a boneca preferida.

A seguir, pediu abrigo na casa da Judite.
Lá foi recebida como filha e cresceu amada.