sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Clarice e o búfalo

Sofrendo por amar quem não a ama, mulher quer aprender a odiar. Decidida a tomar lições com animais, vai ao zoológico. “O búfalo”[1], conto de Clarice Lispector, obedece à estrutura clássica das narrativas do gênero, que leva o protagonista a lutar por um objetivo, em tensão crescente. Narra, porém, pelo avesso. A luta da personagem é interna; o desenlance é a vertigem.
            De forma incomum, a palavra “mas” inicia a história: “Mas era primavera”. Era primavera, mas o inverno era cruel dentro da mulher. Parece que foi ao zoológico em busca de tórrido verão: o calor do ódio. “Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas”, lê-se no início do segundo parágrafo. “Mas é primavera”, repete-se, para dar início ao parágrafo três. Mas, mas... tudo ao contrário do que esperava encontrar. Até ver o búfalo.
            A troca de olhares entre a mulher e o búfalo constitui o clímax da narrativa. O ponto em que o conflito (interno) chega ao máximo e se configura em mal-estar insuportável para ela. Queria aprender a odiar e, quando finalmente tem aula, desfalece. Ter ódio requer a tranquilidade do animal: “O búfalo com o torso preso. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar”. A anti-heroína, em contraste, vive atordoada entre o susto, o medo e a impotência diante do outro. Modo de viver dramatizado pelo passeio na montanha-russa: “Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto (...)”.
            O texto expõe pelo menos três marcas recorrentes na obra de Clarice. Em primeiro lugar, está presente a epifania – quando, através de fatos corriqueiros, personagens experimentam a visão crua do real. Em segundo lugar, o desamparo – não apenas característica do protagonista, mas sua motivação. Por último, destaca-se a correspondência entre a história contada e a biografia da autora. Em carta às irmãs, ela definiu assim sua razão de narrar o conto: “Um dia desses tive um ódio muito forte, coisa que eu nunca me permiti; era mais uma necessidade de ódio. Então escrevi um conto chamado O búfalo (....)”[2]



[1] Conto do livro Laços de família, publicado atualmente pela Rocco.
[2] In: LISPECTOR, Clarice. Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco. pp. 268-270.

Um comentário:

  1. Muito legal sua análise!
    Tomei a liberdade de compartilhá-la no meu mural do facebook.
    Ouço muita gente "reclamar" que não entende o que a Clarice quis dizer. E percebo em quem a entende e tbm em quem não a entende um mal-estar, um incômodo, um soco no estômago.
    Bacana seu blog!
    Um abraço.
    Viviane.

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