sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fio de voz (desde 2004)

Marcelo fazia uma picanha na chapa. “E não é domingo nem nada...”, comentou Daiana. Claro que ninguém ouviu. Por essas e outras, preferia ser muda. Se fosse, não ouviria seu fio de voz que, às vezes, insistia em sair. “Ai, meu Deus...”, dizia. “Que horas são...?”, esquecia de não falar.  “O dia hoje está bonito...”, pensava alto. Ninguém prestava atenção nunca. Todo mundo naquela casa só queria ver televisão. Vinte e nove polegadas, tela plana, som sei lá o quê, imagem não sei o que lá. Todas as tardes, Marcelo ficava passando de um a outro canal da televisão. Todas as noites, os pais dele, Álvaro e Izabel, faziam questão de assistir à programação de um só canal da televisão. Enquanto Daiana... Daiana era a prima.
Pelo menos, assistia à novela. Todas as noites, junto aos três. Heloísa estava sendo julgada. Inocente, era acusada por tráfico de drogas. “Tomara que seja absolvida!”, Daiana exclamava em pensamento. A carne ficou pronta. Que cheirinho mais gostoso! Marcelo serviu a mãe, serviu o pai e se serviu. “Também quero...”, pediu a prima. Claro que ninguém ouviu. Com exagero, Marcelo comia. Álvaro, com prazer. Izabel, com moderação. Enquanto Daiana, Daiana esquecida. “Será que ninguém vai me oferecer...?”, insistiu. Claro que ninguém ouviu. Então a corda apertou sua garganta. Sempre a corda, o nó e a dor. Portanto Daiana, Daiana inaudível.
O capítulo terminou antes que o juiz desse a sentença. Marcelo trocou de canal. Izabel discutiu: sempre divergiam quanto à televisão. Álvaro apoiou a mulher: “Já combinamos que, à noite, não se muda o canal da televisão!”. A picanha já devia estar fria, mas Daiana ainda tinha fome. Seu estômago roncava e sua cabeça rodava. Aproximou-se da sobra na chapa. Não havia mais pedaço cortado. Então cortaria a pontinha. Adorava carne tostada.
Pegou a faca.
Com que facilidade cortou! Carne boa, faca afiada. Daiana nem usou prato: sua fome tinha pressa. Mastigou rapidamente. O nó da garganta apertou. O pedaço não desceu. Daiana não pôde engolir. O estômago roncando, a dor na garganta. Daiana não suportou: cuspiu a carne no chão. Mas limparia logo. Onde guardavam os panos? Era só perguntar de bem perto. Claro que Izabel ouviria. Cochichou com a dona da casa: “Posso lhe falar um instante?”. Atenta à televisão, Izabel ainda não ouviu. Mas Daiana tinha a faca na mão. 
O vestido esquentava. O sutiã apertava. A roupa, a fome. O nó na garganta. A solução nas mãos. Foi então que conseguiu: com a faca da carne da chapa, Daiana cortou a corda que amarrava sua voz... Todo mundo a ouviu, afinal.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Clarice e o búfalo

Sofrendo por amar quem não a ama, mulher quer aprender a odiar. Decidida a tomar lições com animais, vai ao zoológico. “O búfalo”[1], conto de Clarice Lispector, obedece à estrutura clássica das narrativas do gênero, que leva o protagonista a lutar por um objetivo, em tensão crescente. Narra, porém, pelo avesso. A luta da personagem é interna; o desenlance é a vertigem.
            De forma incomum, a palavra “mas” inicia a história: “Mas era primavera”. Era primavera, mas o inverno era cruel dentro da mulher. Parece que foi ao zoológico em busca de tórrido verão: o calor do ódio. “Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas”, lê-se no início do segundo parágrafo. “Mas é primavera”, repete-se, para dar início ao parágrafo três. Mas, mas... tudo ao contrário do que esperava encontrar. Até ver o búfalo.
            A troca de olhares entre a mulher e o búfalo constitui o clímax da narrativa. O ponto em que o conflito (interno) chega ao máximo e se configura em mal-estar insuportável para ela. Queria aprender a odiar e, quando finalmente tem aula, desfalece. Ter ódio requer a tranquilidade do animal: “O búfalo com o torso preso. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar”. A anti-heroína, em contraste, vive atordoada entre o susto, o medo e a impotência diante do outro. Modo de viver dramatizado pelo passeio na montanha-russa: “Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto (...)”.
            O texto expõe pelo menos três marcas recorrentes na obra de Clarice. Em primeiro lugar, está presente a epifania – quando, através de fatos corriqueiros, personagens experimentam a visão crua do real. Em segundo lugar, o desamparo – não apenas característica do protagonista, mas sua motivação. Por último, destaca-se a correspondência entre a história contada e a biografia da autora. Em carta às irmãs, ela definiu assim sua razão de narrar o conto: “Um dia desses tive um ódio muito forte, coisa que eu nunca me permiti; era mais uma necessidade de ódio. Então escrevi um conto chamado O búfalo (....)”[2]



[1] Conto do livro Laços de família, publicado atualmente pela Rocco.
[2] In: LISPECTOR, Clarice. Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco. pp. 268-270.