sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mulher por um dia (desde 2000)

Em meia oito, a gente tomava pílula e abria as pernas para a tal liberação sexual... Mentira... Sou dessas que em meia oito estudavam em colégio de freira e achavam que trepar era subir em árvore. Anos depois, casei-me virgem e nunca tive outro homem que não meu ex-marido. Comecei tentando encontrar uma narradora, como sempre. Mas está difícil, hoje.

Hoje acordei opaca porque esta noite me deitei com um homem qualquer. Desde que me separei, todos os homens por quem me interessei eram casados, ou só queriam saber de mulheres jovens. Os que se interessaram por mim... Na verdade, desde que me separei, nunca fui paquerada. Mas ia bem assim, sabe? Até que me olhei no espelho outro dia. Vi uma mulher tão só que fiquei com pena de mim. Vi a falta que me faz a felicidade de quem ama e é amado. Foi então que pensei nesse esquema: resignar-me a ser amada e a amar – de mentira.

Trouxe o estranho para minha casa. Ofereci uísque doze anos, vinho francês, um jantar de primeira e o meu corpo de segunda. A gente até que estava se entendendo. Mas, na hora, ele se recusou a usar preservativo. Desisti. Pedi para ele sair e nunca vir a me procurar. O que se seguiu, foi a saudade do tempo em que eu era moça e amava meu marido...

O leitor deve estar pensando: mas o que deu na Maria Fernanda? Sempre traz histórias instigantes para este espaço, mas hoje apela para um confessional sem graça, sem clímax, sem nexo! É que esta que ora escreve sente-se cansada... E, sabe, leitor, publicar toda semana neste jornal, faz com que eu me sinta sua amiga íntima... Me desculpe, sim? Me desculpe pelo abuso. É que estou tão precisada de não inventar um narrador... Eu quero ser uma mulher, nem que seja por um dia.

O que me restou da vida que levei? O que me restou, senão esta opressão no peito? Estou ruim mesmo, hoje. Ah, Deus, por favor... por favor, me ajude a transformar a dor em histórias bonitas. Se não foi na vida, que seja na prosa.


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2 comentários:

  1. Esse texto é um passeio pelas terras atemporais do imaginário feminino, pois, com as devidas "adaptações", toda mulher que já ficou algum tempo sem namorado/marido/parceiro tem um quê de Maria Fernanda. ;)

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