domingo, 2 de outubro de 2011

Bebe comigo (desde 1998)

— Ronaldo?
— Você é...
— Ronaldo, faz vinte anos... vinte anos que eu não te vejo!
— Madalena!
— Arrependida.
— Madalena... Madalena, quem diria, bebendo sozinha nesse bar sombrio!

— E você, o que faz por aqui?
— Entrei só pra comprar cigarro. Estou indo pra análise, aqui do lado.
— Dá tempo de tomar um copo comigo, não dá?
— Um só dá.
— Senta aí.
— E então, Madalena? Arrependida de quê?
— Você não fumava...
— Nem você... Mas conta, me fala de você.
— Ah, não, Ronaldo. Vamos falar de coisa alegre. Conta você. Fala da sua vida.
— Estou me lembrando daquela noite... quando você terminou tudo comigo. Não acreditei, achei que ia morrer. Não morri, mas quase.
— Eu era atriz... ou queria ser. Aí, pintou aquele cara com um papo de me lançar profissionalmente... Achei que era sério, que ele queria me namorar... Quanta ingenuidade!
— Você não ficou com ele?
— Se aquele paraíso prometido tivesse dado certo, eu não estava aqui hoje, enchendo a cara nessa espelunca.
— O que aconteceu?
— Ele não gostou quando eu disse que tinha rompido com você. Falou que não curtia exclusividade, que não... Enfim, não queria nada, foi tudo bobagem minha.
— Sofri tanto quando tudo aquilo aconteceu, Madalena. Sofri tanto que passei dois anos da casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Não tinha mulher nenhuma que me chamasse a atenção. Foi a pior fase da minha vida.
— O pior, Ronaldo, o pior é que, dois meses depois, descobri que estava grávida. De três meses. Eu não sabia de quem o filho era, falei pro Marcos que era dele, ele me deu dinheiro pra abortar e me mandou sumir.
— Aí, Madalena, consegui uma promoção ótima lá na empresa. Fui transferido pra Nova Iorque. Me dei bem. Logo, logo, conheci por lá uma brasileira, casei em poucos meses.
— Eu estava tão transtornada, eu era muito jovem, muito boba. Fiz o aborto. Fiz o aborto e até hoje não sei de quem era. Será que era seu filho?
— Tenho quatro filhos. Estão crescidos já. Mesmo assim, não aceitam que eu tenha me separado da mãe deles.
— Você se separou? Eu também. Quer dizer, ainda não te contei. Pra guardar uma parte do dinheiro que o Marcos me deu pro aborto, acabei fazendo num lugar horrível. Resultado: fiquei sem filho e sem útero... Depois disso, comecei a trabalhar numa galeria de arte. Lá, conheci um artista plástico e ficamos casados anos.
— A minha filha também já fez um aborto. A mais velha.
— O Maurício sabia das minhas escapadas, ele não reclamava, ele sabia que... Você sabe. Ele sabia que não me satisfazia.
— A minha mulher me satisfazia, sim. Mas aí eu me apaixonei pelo Paul.
— Mas o Maurício foi ficando deprimido, deprimido... Até que enfiou a cabeça no forno. Cheguei em casa e senti aquele cheiro de gás...
— Sabe, Madalena, eu estava numa boa lá com o Paul, aí ele...
— Já faz oito anos. Há oito anos fiquei viúva.
— ...me falou que ia pra Califórnia com um cara...
— Puxa, Ronaldo...
— Me vi em Nova Iorque tão sozinho, minha mulher não fala mais comigo, meus filhos esqueceram que têm pai...
— Para com isso, Ronaldo...
— Mês passado, pedi demissão e voltei.
— E veio encontrar logo quem!
— ...
— ...
— Já está na minha hora. Adorei te rever!
— Muito obrigada por beber comigo, Ronaldo.
— Bebe comigo outra vez, Madalena.

2 comentários:

  1. Oi Ana,
    Adorei! O ritmo da crônica é muito bom e a história também!

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