quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Oficina de autoficção

Quando criei a oficina, minha ideia era vaga. Era mais uma aposta do que um plano de trabalho. Sabia que gostaria de compartilhar minha forma de escrever/viver. Pensei que a Estação das Letras seria um bom lugar. Ainda não conhecia a Estação... E não tinha a menor ideia de quem seriam os alunos... A oficina era um risco, um improviso. No qual só tive coragem de me lançar porque o desejo era forte demais. Hoje, três anos e meio depois, li uma crônica que é como um presente. Veio de um aluno da turma atual, Rodolpho Sauret, e foi publicada originalmente no blog dele, http://natampadacaneta.blogspot.com :  

Autoficção

Às segundas eu costumava sentar no sofá do consultório com os pés descalços e, fato raro, falar quase sem parar. Quando sobrava tempo para ouvir, o verbo se repetia: expandir. A cada vez que o assunto retornava, eu eliminava as possibilidades com a alegação mais sincera: falta de interesse. Acabei percebendo que apenas a minha satisfação pessoal seria capaz de trazer alternativas para a expansão. Por isso, terminava a sessão falando do blog, das ideias que tinha para divulgá-lo, do retorno que eu tinha dos amigos leitores, da surpresa que era escrever tanto e tão fácil. Foi assim que expandir se tornou sinônimo de escrever melhor.
A terapia já tinha passado a ser quinzenal quando me deparei com a ementa do curso de Autoficção da Estação das Letras. Reconheci ali boa parte dos meus textos em perguntas simples: “Ao lembrar, inventamos? Quem somos senão quem decidimos ser?” Percebi que a questão não era apenas escrever melhor, mas entender motivações e encontrar direções. Desde a primeira aula, o curso é uma extensão da terapia. Descobri que autoficção é um exercício de autoconhecimento, neste caso, feito em grupo formado por pessoas com a mesma vontade de transformar lembranças em histórias e de aprender a preencher os vazios de memória com letras.
A autoficção ocupa agora os instantes de inspiração ao longo da semana e as minhas noites de segunda. Por isso, a terapia temporariamente acontece em horário alternativo, em quintas alternadas. Lá continuamos a tratar de expansão, sem esconder a empolgação com o primeiro tiro: certeiro. Ela diz que eu encontrei a minha turma e eu não posso dizer que foi tarde: aos 37 anos, sou um dos mais novos aprendizes. Enquanto ela fica com uma boa quantidade dos marcadores de livro para divulgar o blog, eu fico imaginando quanta ficção preenche aquele consultório de releituras biográficas.
Não nego a ansiedade pela próxima aula, porque hoje, talvez pela primeira vez, a vontade supera a inibição: quero expor para depois reescrever. E para escrever melhor, preciso das críticas, quero ouvir o que dizem os colegas e a nossa orientadora, com mais esperança do que vergonha.
Aqui, alguma autocrítica me leva a questionar por que não vejo traço da ficção de que trata o curso e que promete o título. Só encontro uma explicação: se tudo o que escrevi é fato, os vazios foram preenchidos, também com letras, fora do texto.

2 comentários:

  1. Rodolpho é talento nato, que cresceu comigo, que divide comigo tantas aventuras... amo,amo,amo...

    http://borogoblogs.blogspot.com

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  2. Querida Ana,
    fico a pensar que tão poetica é a vida!
    E como vc a compõem com doçura.
    Os frutos dos deus desafios são doces, prazerosos de ler e ter.
    Parabéns a vc e ao Rodolpho.
    Ja fiquei com uma enorme vontade de conhece-lo motivada pela busca comum de um lindo verbo: EXPANDIR!
    Que as letras nos permita EXPANDIR na busca de um ser melhor! :)

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