domingo, 4 de setembro de 2011

Foi assim



Hoje, compartilho um texto alheio. Adorei esta crônica da Cacau Vilardo e penso que tem tudo a ver com meus diários bordados. O livro a que ela se refere, Fico à espera, é uma belezinha de autoria dos franceses Davide Cali e Serge Bloch, publicada no Brasil pela editora Cosac Naify.  

FOI ASSIM
Por Cacau Vilardo

Para Sandra

“No princípio, Deus criou o céu e a terra (...)”

De manhã, bem cedo, o telefone tocou. Andei até este com a certeza do que ia ouvir. Cada passo contava um ano. 56 anos. 39 anos dos quais eu convivi.

Olha pra mim, no meu olho. Sua pálpebra se levantou. Seus olhos bastante amarelados me revelaram que aquela seria a nossa despedida. Eu te amo.
- Alô.
Ela se foi. Às 7:42h. O dia estava lindo. Corações flutuavam no céu. Ela soube escolher bem. Dia dos namorados.
Minha pequena filha me observou durante a curta conversa ao telefone. Quando acabei, ela pegou um livro.
- Mamãe, lê pra mim?
“Fico à espera...”
(Não posso. Não vou conseguir.)
- Filha, deixa a Juliana ler.
- Não, mamãe, você.
Abri o livro. Lá estava o fio. Vermelho. Rompido na página 43.
Segura aí meu Deus, segura aí a minha partida. Esse era seu pedido. Falava rindo. E nos fazendo rir. Eu não quero ir agora. Os médicos haviam dado a ela 5, 6 meses de vida. Já se passavam mais de 4 anos. Ainda tenho muita coisa a fazer. Segura aí.  Esperou o casamento da filha caçula.  Depois, o nascimento do quinto neto.

- Mamãe, por que o fio está cortado aqui?
- Porque a mulher desse moço estava muito doente e virou estrelinha.
- Mamãe, ela morreu?
- Morreu.
Três semanas antes, ela contrariou a mãe e os médicos. Apesar do corpo amarelo, da respiração difícil, das dores, fomos a uma festa. Era a sua vontade. Ela dançou. E sorriu. Muito. Abraçou todas as amigas do ballet. E dançou mais. E sorriu mais. Vamos embora? Está ficando muito frio. Ela quis ficar. Quis esperar o bolo.
Eu ainda estava diante da mesma ilustração. Impactada pelo fio rompido. Eu não conseguia virar a página. Fechei o livro.
- Mamãe, a fada Sininho é uma estrelinha?
- Sim, filha, a gente pode dizer que sim. Ela é um tipo de estrelinha. Ela brilha e tem asas.
Tô aqui na Disney com os netos. Quero saber que fantasia eu compro pra minha sobrinha. Ela tinha ido. Fazia tudo que os médicos sugeriam a ela não fazer. Seguia suas vontades.
- Mamãe, veste em mim a fantasia da Sininho?
Claro. Eu me levantei. Senti o peso do meu corpo. Eu estava cansada. As últimas semanas haviam sido muito difíceis. Eu precisava de um banho. Longo. Vesti um anel. Grande. De coração. Um que eu tinha certeza que ela ia gostar. Fui ao hospital. Ela estava no quarto 30. Deitada. Toda de branco. E sorrindo. Linda.
- Missão cumprida, minha irmã. Hora de descanso.
Era domingo.
“(...)E Deus acabou no sétimo dia a obra que tinha feito.E abençoou o dia sétimo e o santificou, porque nele tinha cessado de toda a sua obra, que tinha criado e feito.”

2 comentários:

  1. Emocionante e suave!
    Gostaria de morrer num domingo!

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  2. Minha querida cunhada, concordo com vc! Muito a ver com a autora do Diários Bordados. "...dia dos namorados ...". Me trouxe paz e a lembrança de uma pessoa muito querida que sempre menciono a seus sobrinhos, chamada Sônia. Beijos no coração.

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