quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O blog amarelo

Faz tempo que divido minha vida em espaços, como cadernos, envelopes, pastas, caixas ou gavetas.  Dizem que sou muito organizada e talvez esta seja a chave: um espaço para cada fio de história. Assim, quando terminei meu doutorado, já alimentava o envelope do “pós-doutorado”. Tinha tópicos que não haviam entrado na tese, artigos não usados, enfim, modos de continuar minha pesquisa – no labirinto amarelo.
O envelope, lembro bem, comecei em meados de 2009, durante meu estágio na Universidade Nova de Lisboa. Menos de um ano depois, tese defendida, ele estava para arrebentar. Então, comprei a pasta, grossa e amarela, que logo lotou. Por algum tempo, não mexi mais nela: deixei-a na prateleira, pensando. Sim, os espaços pensam.
Por exemplo, no que me disse Renato Cordeiro Gomes, em meados de 2010. Ele tinha me orientado no doutorado recente, então o procurei para conversar sobre um possível pós-doutorado. Ouvi que eu devia decidir se queria “ser escritora” ou “ter vida acadêmica”.
Por exemplo, no que disse a professora Vera Follain, no meu exame de qualificação. Para ela, se eu quisesse fazer uma tese de doutorado sobre a obra de Lygia Bojunga, eu tinha que me distanciar da imagem da autora. As opções seriam ir fundo num romance... ou mudar o objeto. Era dezembro de 2007.  
Nas palavras da professora Marília Rothier, no mesmo exame. Foi ela que apontou, no meu próprio projeto de tese, o caminho da autoficção de leitora, que finalmente escrevi. Obrigada, Marília!
E também no que me disse, mês passado, a professora Ana Cláudia Viegas, que cheguei a sondar para minha supervisão de pós-doutorado: “Tem que distanciar!”.
Em termos gerais, não vejo incompatibilidade entre a prática acadêmica e a prática literária. Minha pasta amarela, porém, precisava pensar no seu caso específico. Por fim, entendendo que, atualmente, a distância crítica ocuparia o espaço da minha prática criativa, interrompi o projeto de pós-doutorado. A parte escrita, imprimi e guardei na minha nova caixa, amarela.
Faz uns quinze dias que comprei. Foi logo depois da conversa com Ana Cláudia (a pasta já ia espocar). A caixa é das grandes, bonita e oportuna. Enfeita meu quarto e ilumina o ambiente. Rápida, já pensou um novo espaço, O blog amarelo.Você é bem-vindo por lá!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Oficina de autoficção

Quando criei a oficina, minha ideia era vaga. Era mais uma aposta do que um plano de trabalho. Sabia que gostaria de compartilhar minha forma de escrever/viver. Pensei que a Estação das Letras seria um bom lugar. Ainda não conhecia a Estação... E não tinha a menor ideia de quem seriam os alunos... A oficina era um risco, um improviso. No qual só tive coragem de me lançar porque o desejo era forte demais. Hoje, três anos e meio depois, li uma crônica que é como um presente. Veio de um aluno da turma atual, Rodolpho Sauret, e foi publicada originalmente no blog dele, http://natampadacaneta.blogspot.com :  

Autoficção

Às segundas eu costumava sentar no sofá do consultório com os pés descalços e, fato raro, falar quase sem parar. Quando sobrava tempo para ouvir, o verbo se repetia: expandir. A cada vez que o assunto retornava, eu eliminava as possibilidades com a alegação mais sincera: falta de interesse. Acabei percebendo que apenas a minha satisfação pessoal seria capaz de trazer alternativas para a expansão. Por isso, terminava a sessão falando do blog, das ideias que tinha para divulgá-lo, do retorno que eu tinha dos amigos leitores, da surpresa que era escrever tanto e tão fácil. Foi assim que expandir se tornou sinônimo de escrever melhor.
A terapia já tinha passado a ser quinzenal quando me deparei com a ementa do curso de Autoficção da Estação das Letras. Reconheci ali boa parte dos meus textos em perguntas simples: “Ao lembrar, inventamos? Quem somos senão quem decidimos ser?” Percebi que a questão não era apenas escrever melhor, mas entender motivações e encontrar direções. Desde a primeira aula, o curso é uma extensão da terapia. Descobri que autoficção é um exercício de autoconhecimento, neste caso, feito em grupo formado por pessoas com a mesma vontade de transformar lembranças em histórias e de aprender a preencher os vazios de memória com letras.
A autoficção ocupa agora os instantes de inspiração ao longo da semana e as minhas noites de segunda. Por isso, a terapia temporariamente acontece em horário alternativo, em quintas alternadas. Lá continuamos a tratar de expansão, sem esconder a empolgação com o primeiro tiro: certeiro. Ela diz que eu encontrei a minha turma e eu não posso dizer que foi tarde: aos 37 anos, sou um dos mais novos aprendizes. Enquanto ela fica com uma boa quantidade dos marcadores de livro para divulgar o blog, eu fico imaginando quanta ficção preenche aquele consultório de releituras biográficas.
Não nego a ansiedade pela próxima aula, porque hoje, talvez pela primeira vez, a vontade supera a inibição: quero expor para depois reescrever. E para escrever melhor, preciso das críticas, quero ouvir o que dizem os colegas e a nossa orientadora, com mais esperança do que vergonha.
Aqui, alguma autocrítica me leva a questionar por que não vejo traço da ficção de que trata o curso e que promete o título. Só encontro uma explicação: se tudo o que escrevi é fato, os vazios foram preenchidos, também com letras, fora do texto.

domingo, 4 de setembro de 2011

Foi assim



Hoje, compartilho um texto alheio. Adorei esta crônica da Cacau Vilardo e penso que tem tudo a ver com meus diários bordados. O livro a que ela se refere, Fico à espera, é uma belezinha de autoria dos franceses Davide Cali e Serge Bloch, publicada no Brasil pela editora Cosac Naify.  

FOI ASSIM
Por Cacau Vilardo

Para Sandra

“No princípio, Deus criou o céu e a terra (...)”

De manhã, bem cedo, o telefone tocou. Andei até este com a certeza do que ia ouvir. Cada passo contava um ano. 56 anos. 39 anos dos quais eu convivi.

Olha pra mim, no meu olho. Sua pálpebra se levantou. Seus olhos bastante amarelados me revelaram que aquela seria a nossa despedida. Eu te amo.
- Alô.
Ela se foi. Às 7:42h. O dia estava lindo. Corações flutuavam no céu. Ela soube escolher bem. Dia dos namorados.
Minha pequena filha me observou durante a curta conversa ao telefone. Quando acabei, ela pegou um livro.
- Mamãe, lê pra mim?
“Fico à espera...”
(Não posso. Não vou conseguir.)
- Filha, deixa a Juliana ler.
- Não, mamãe, você.
Abri o livro. Lá estava o fio. Vermelho. Rompido na página 43.
Segura aí meu Deus, segura aí a minha partida. Esse era seu pedido. Falava rindo. E nos fazendo rir. Eu não quero ir agora. Os médicos haviam dado a ela 5, 6 meses de vida. Já se passavam mais de 4 anos. Ainda tenho muita coisa a fazer. Segura aí.  Esperou o casamento da filha caçula.  Depois, o nascimento do quinto neto.

- Mamãe, por que o fio está cortado aqui?
- Porque a mulher desse moço estava muito doente e virou estrelinha.
- Mamãe, ela morreu?
- Morreu.
Três semanas antes, ela contrariou a mãe e os médicos. Apesar do corpo amarelo, da respiração difícil, das dores, fomos a uma festa. Era a sua vontade. Ela dançou. E sorriu. Muito. Abraçou todas as amigas do ballet. E dançou mais. E sorriu mais. Vamos embora? Está ficando muito frio. Ela quis ficar. Quis esperar o bolo.
Eu ainda estava diante da mesma ilustração. Impactada pelo fio rompido. Eu não conseguia virar a página. Fechei o livro.
- Mamãe, a fada Sininho é uma estrelinha?
- Sim, filha, a gente pode dizer que sim. Ela é um tipo de estrelinha. Ela brilha e tem asas.
Tô aqui na Disney com os netos. Quero saber que fantasia eu compro pra minha sobrinha. Ela tinha ido. Fazia tudo que os médicos sugeriam a ela não fazer. Seguia suas vontades.
- Mamãe, veste em mim a fantasia da Sininho?
Claro. Eu me levantei. Senti o peso do meu corpo. Eu estava cansada. As últimas semanas haviam sido muito difíceis. Eu precisava de um banho. Longo. Vesti um anel. Grande. De coração. Um que eu tinha certeza que ela ia gostar. Fui ao hospital. Ela estava no quarto 30. Deitada. Toda de branco. E sorrindo. Linda.
- Missão cumprida, minha irmã. Hora de descanso.
Era domingo.
“(...)E Deus acabou no sétimo dia a obra que tinha feito.E abençoou o dia sétimo e o santificou, porque nele tinha cessado de toda a sua obra, que tinha criado e feito.”