domingo, 7 de agosto de 2011

Defesa de tese, parte 2

            (CONTINUAÇÃO)
Perder o vínculo com a Puc, naquele momento, seria perder o terreno em que minha casa se projetava. Em meados de 2005, quando defendi a dissertação, a construção ainda iria começar. Num terreno que eu já perdera 15 anos antes, com a saída do Teresiano. E eu precisava de uma casa pra morar. Por isso pedi que o Renato supervisionasse as obras nos quatro anos seguintes, como meu orientador no doutorado.
            Meu objetivo não era necessariamente fazer uma tese. Eu só poderia estar ali como a pessoa que – por um triz – não continuou desabrigada. Fui então fazendo minha casa, que tomou a forma de um romance ensaístico. Minha tese é, também, uma extensa carta a Lygia Bojunga, uma resposta a alguém que me diz tanto há mais de trinta anos. É ainda um texto que me expõe, mas só para quem me visitar.
            E foi desta casa nova que, no mês anterior à defesa de tese, ouvi a notícia sobre o terremoto no Chile. Eu sabia que Lygia estava em Santiago, participando de um congresso. A imprensa ainda não tinha notícia de nenhum brasileiro. Santiago estava incomunicável e a Lygia estava lá. Era sábado, e fui me deitar depois de assistir ao Jornal Hoje. Acordei uma hora depois, com três imagens na cabeça:

            1a imagem: A boneca Emília, tapando os ouvidos para o que conta dona Benta sobre o desenlace de Dom Quixote. Ela então recria a história, de modo que o herói não morra.
            2a imagem: Raquel, em A bolsa amarela, o terceiro livro de Lygia. Ao perder um amigo, ela reescreve a história dele, de modo que ele não tenha morrido, mas viajado.
            3a imagem: Eu, diante da banca, no mês seguinte, durante a defesa. Defendendo o meu direito de não querer perder Lygia Bojunga de jeito nenhum. Defendendo meu direito de recriá-la morando numa casa que, se é de livro, é imune a terremotos, balas perdidas e novas tecnologias. Com a mulher, que mora nos livros, eu sei, eu tenho certeza, não vou perder o vínculo – de jeito nenhum.

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