quinta-feira, 25 de agosto de 2011

De reescrituras

Esta noite reli o conjunto das crônicas deste blog e hoje pensei numa delas, “Aula de Português 2”. De fato, dona Sônia sugeriu o exercício da reescritura e senti um gosto que ainda trago na boca. Tinha 11, 12 anos.
Até hoje, gosto tanto de lavrar a palavra que vivo reescrevendo mentalmente o que leio. Frases em outdoors, manchetes de jornais, títulos de livros... O exercício da reescritura parece natural, e mesmo trabalhos de revisão/copidesque podem me trazer o tal gosto à boca.
Sei lá porque estou lembrando essas coisas, mas este blog também existe para que eu me descubra. Insisto:
Numa fase, adorava assistir a programas de entrevistas com escritores. Num deles, domingo à noite, Leda Nagle entrevistava Nélida Piñon. No fim, naquela parte em que o jornalista costuma perguntar que conselho o entrevistado daria para jovens escritores, Nélida enfatizou a busca pela “palavra exata”. Então, imaginei meu futuro como um longo e saboroso caminho de reescrituras. Tinha 19 anos, vinte.
Claro que não se chega à palavra exata, e imagino que Nélida se referisse a esta impossibilidade. Porque se você sabe que não vai encontrar e mesmo assim busca, encontra outra coisa – mas encontra. Sei lá porque estou lembrando essas coisas, mas este blog também existe para que eu me descubra. E insisto e me lembro:
Sábado resgatei um texto, da pasta do computador para a impressão em papel. Foi escrito entre 2000 e 2004 e também se chama Diários bordados. Comecei a escrevê-lo porque vivia um cotidiano que não me servia mais. Terminei assim:

Hoje não estou mais ali, hoje eu quero mais. Eu quis sair dali. Eu quis vir embora, como fazem tantas pessoas que temos por perto e, quando nos damos conta, já foram. Eu não tinha saco para talher de peixe porque sentia falta de outras maneiras, não caibo em regras, eu as bagunço. A minha fome não combina com um tratado de etiqueta. O que é, mãe? Mãe é o que eu estou chamando de mãe, outra hora falo mãe designando uma outra coisa. Nomes, mamas, fatos.
Dizem que as palavras não dão conta da realidade, mas eu digo que dão. Porque uma palavra não é só uma palavra: é uma palavra usada no meio de outras com essa e com aquela intenção. Palavra pode tudo, desde que desarrumada, despalavrada e repalavrada. Assim penso, assim faço, assim vivo: reescrevendo-as.

domingo, 7 de agosto de 2011

Defesa de tese, parte 2

            (CONTINUAÇÃO)
Perder o vínculo com a Puc, naquele momento, seria perder o terreno em que minha casa se projetava. Em meados de 2005, quando defendi a dissertação, a construção ainda iria começar. Num terreno que eu já perdera 15 anos antes, com a saída do Teresiano. E eu precisava de uma casa pra morar. Por isso pedi que o Renato supervisionasse as obras nos quatro anos seguintes, como meu orientador no doutorado.
            Meu objetivo não era necessariamente fazer uma tese. Eu só poderia estar ali como a pessoa que – por um triz – não continuou desabrigada. Fui então fazendo minha casa, que tomou a forma de um romance ensaístico. Minha tese é, também, uma extensa carta a Lygia Bojunga, uma resposta a alguém que me diz tanto há mais de trinta anos. É ainda um texto que me expõe, mas só para quem me visitar.
            E foi desta casa nova que, no mês anterior à defesa de tese, ouvi a notícia sobre o terremoto no Chile. Eu sabia que Lygia estava em Santiago, participando de um congresso. A imprensa ainda não tinha notícia de nenhum brasileiro. Santiago estava incomunicável e a Lygia estava lá. Era sábado, e fui me deitar depois de assistir ao Jornal Hoje. Acordei uma hora depois, com três imagens na cabeça:

            1a imagem: A boneca Emília, tapando os ouvidos para o que conta dona Benta sobre o desenlace de Dom Quixote. Ela então recria a história, de modo que o herói não morra.
            2a imagem: Raquel, em A bolsa amarela, o terceiro livro de Lygia. Ao perder um amigo, ela reescreve a história dele, de modo que ele não tenha morrido, mas viajado.
            3a imagem: Eu, diante da banca, no mês seguinte, durante a defesa. Defendendo o meu direito de não querer perder Lygia Bojunga de jeito nenhum. Defendendo meu direito de recriá-la morando numa casa que, se é de livro, é imune a terremotos, balas perdidas e novas tecnologias. Com a mulher, que mora nos livros, eu sei, eu tenho certeza, não vou perder o vínculo – de jeito nenhum.