domingo, 24 de julho de 2011

De Casas e Lígias

Minha mãe falou muitas vezes sobre a diferença que uma dona de casa faz numa casa. A casa de quem não trabalha fora seria mais aconchegante. Se a mulher se dedica sobretudo ao lar, minha mãe dizia, ele fica muito mais gostoso. Evidentemente não se pode concordar em termos absolutos, mas a observação faz sentido, sim. Voltei de Curitiba pensando nisso, pois a atmosfera de aconchego na casa da minha prima é muito particular. Lígia se dedica sobretudo à família, grande, à qual não para de agregar novas pessoas. O sobrinho que já morou com ela é filho, a mulher dele é nora, o irmão do marido é seu protegido e os pais, idosos, nem se fala.
Quando cheguei, na segunda-feira, a netinha da Lígia estava na UTI. Isabela, aos cinco meses de idade, contraíra uma infecção pulmonar, cujo desenrolar ainda era desconhecido. Mesmo assim, fui recebida com graça e pedidos de que não fizesse cerimônia, porque as atenções estavam no hospital. Mesmo assim, a geladeira repleta e a sopa no fogão. A sopa era tão boa que, no terceiro dia, já saí do congresso com a cabeça nela. Foi no terceiro dia também que a nenem passou da UTI ao quarto do hospital. No quinto dia, quando eu tinha uma folga para passear, fiquei dividida entre conhecer a cidade e curtir a casa. Acabei dividindo o dia entre as duas coisas... O frio de Curitiba pode ter contribuído: na casa da Lígia, fui acolhida demais.
                Estava lá para o congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada). No simpósio sobre Formação do Leitor, apresentei um artigo sobre Lygia Bojunga. A escritora, de cuja obra tratei na minha tese de doutorado, trabalha de diversas formas com a metáfora da casa. Desde A casa da madrinha, livro lançado nos anos setenta, até o nome da sua editora, criada há nove anos (Casa Lygia Bojunga), a casa tem em Lygia um sentido inesgotável. Aliás, no texto que levei para apresentar no congresso, eu chamava a atenção para a imagem da primeira orelha de cada um dos livros dela: um livro aberto em forma triangular, servindo de telhado para uma casa desenhada; no centro da casa, a fotografia da autora. É como se Lygia morasse no livro.
                Cheguei ontem de Curitiba e encontrei minha geladeira vazia, como de costume. Logo fui ao supermercado, de onde trouxe tudo e mais alguma coisa. Hoje tento escrever, porque no Rio também tem feito um frio danado.

Um comentário:

  1. Querida cunhada, minha sogra é que sempre esteve certa!
    Sei bem o que é isso! O sentimento de culpa quando estou trabalhando, envolvida, feliz por que amo trabalhar e os meninos reclamando que não tem atenção suficiente ... o dente que está mole e a "mãe" não viu, as aflições com as garotas da escola e querem conselhos ... mas a "mãe não está em casa... enfim ...

    E neste periodo em casa, de licença medica os comentários são: "mãe" que delicia o almoço, "mãe" é tão bom vc estar em casa e nos acompanhar crescendo ...

    A casa realmente está diferente ... estou gostando de estar em casa, ja com muitas saudades do trabalho, mas apreciando e buscando me encontrar nestes conceitos do que as mulheres séc. XXI precisam fazer para serem tb felizes como mãe, esposa e como pessoa.

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