domingo, 31 de julho de 2011

Defesa de tese, parte 1

                O ritual da defesa de tese costuma assombrar o doutorando pelos quatro anos do curso. Comigo não foi diferente: o que eu diria? Uma vez marcada a defesa, porém, tinha que decidir. Parei para pensar, e logo algumas imagens se passaram pela minha cabeça. Elas me disseram tanto que, um ano e meio depois, ainda as guardo comigo:

                1a imagem – De passagem, minha monografia sobre Iracema, escrita em meados de 2006, finalizando o primeiro semestre do período de doutorado. Foi o trabalho de conclusão do curso de Renato Cordeiro Gomes, meu orientador, sobre as narrativas da nação. Escolhi falar do romance de José de Alencar por tê-lo relido três vezes durante o curso, elegendo-o um de meus livros preferidos. Tratei de como a protagonista foi criada para perecer e deixar espaço ao filho Moacir, mas também de como ela pereceu a partir de uma atitude sua, legítima e deliberada. Uma escolha, uma opção por trair o que tinha de essencial. Ao cortar o vínculo com sua tribo, Iracema escolhia morrer.
                2a imagem – O espanto que provocara anos antes na professora Vera Follain, que me orientava no mestrado em Comunicação. Disse a ela que preferia o doutorado em Letras na Puc a outro qualquer. Por quê?, ela quis saber. Porque estudei no Teresiano... Vera não entendeu.
                3a imagem – A sensação de volta pra casa que passei a ter durante o curso de mestrado. Incentivada pelo que ouvia nas aulas, voltei a ler ficção com maior frequência, tanto quanto eu só tinha lido em criança.
                Por último, a 4a imagem – Meu reencontro com Lygia Bojunga, meses antes de entrar no mestrado, a partir do lançamento de Retratos de Carolina.

                Bom, diante do espanto da orientadora pela minha justificativa, tentei explicar melhor. Disse que jamais tinha sido tão feliz em algum lugar como fui no Colégio Teresiano, onde estudei dos dez aos 18 anos. Ali eu tinha condições de ser quem desejava ser: adorava estudar e tinha o espaço ideal para isso; adorava assistir a aulas e tinha professores ótimos; precisava levantar o dedo para pedir a palavra e fazia isso à vontade; precisava ir adiante e ali eu podia. No Teresiano, eu tinha amigos que admirava e que me admiravam. E sabia que podia contar com os professores, que amava.
                Minha saída do colégio para a UFRJ não foi muito agradável. Me senti tão frustrada que cheguei a lamentar o êxito no vestibular. E, ao dizer sem pensar, sem querer, ao ouvir-me dizer que preferia o doutorado em Letras na Puc a qualquer outro, entendi algo importante. Entendi que, somente no mestrado, 15 anos depois da formatura no 2o grau, vinha sentindo algo que se aproximava do que sentira no colégio. E não queria perder isso, eu não queria perder o vínculo com a Puc de jeito nenhum.
(CONTINUA NA SEMANA QUE VEM)

domingo, 24 de julho de 2011

De Casas e Lígias

Minha mãe falou muitas vezes sobre a diferença que uma dona de casa faz numa casa. A casa de quem não trabalha fora seria mais aconchegante. Se a mulher se dedica sobretudo ao lar, minha mãe dizia, ele fica muito mais gostoso. Evidentemente não se pode concordar em termos absolutos, mas a observação faz sentido, sim. Voltei de Curitiba pensando nisso, pois a atmosfera de aconchego na casa da minha prima é muito particular. Lígia se dedica sobretudo à família, grande, à qual não para de agregar novas pessoas. O sobrinho que já morou com ela é filho, a mulher dele é nora, o irmão do marido é seu protegido e os pais, idosos, nem se fala.
Quando cheguei, na segunda-feira, a netinha da Lígia estava na UTI. Isabela, aos cinco meses de idade, contraíra uma infecção pulmonar, cujo desenrolar ainda era desconhecido. Mesmo assim, fui recebida com graça e pedidos de que não fizesse cerimônia, porque as atenções estavam no hospital. Mesmo assim, a geladeira repleta e a sopa no fogão. A sopa era tão boa que, no terceiro dia, já saí do congresso com a cabeça nela. Foi no terceiro dia também que a nenem passou da UTI ao quarto do hospital. No quinto dia, quando eu tinha uma folga para passear, fiquei dividida entre conhecer a cidade e curtir a casa. Acabei dividindo o dia entre as duas coisas... O frio de Curitiba pode ter contribuído: na casa da Lígia, fui acolhida demais.
                Estava lá para o congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada). No simpósio sobre Formação do Leitor, apresentei um artigo sobre Lygia Bojunga. A escritora, de cuja obra tratei na minha tese de doutorado, trabalha de diversas formas com a metáfora da casa. Desde A casa da madrinha, livro lançado nos anos setenta, até o nome da sua editora, criada há nove anos (Casa Lygia Bojunga), a casa tem em Lygia um sentido inesgotável. Aliás, no texto que levei para apresentar no congresso, eu chamava a atenção para a imagem da primeira orelha de cada um dos livros dela: um livro aberto em forma triangular, servindo de telhado para uma casa desenhada; no centro da casa, a fotografia da autora. É como se Lygia morasse no livro.
                Cheguei ontem de Curitiba e encontrei minha geladeira vazia, como de costume. Logo fui ao supermercado, de onde trouxe tudo e mais alguma coisa. Hoje tento escrever, porque no Rio também tem feito um frio danado.

domingo, 10 de julho de 2011

Carta a Antônia

No meu livro Para crescer (editora Escrita Fina), Antônia anda às voltas com o que chama de fim do mundo. Se todos diziam que o mundo iria acabar em 2000, a verdade é que o mundo dela, sim, acabou. Há vinte dias, conversei sobre o livro com alunos da nona série da Escola Alemã Corcovado, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Então soube que cada um tinha escrito uma carta a Antônia. De todas as redações, os próprios alunos escolheram uma para me mostrar. Seu autor, Felipe Carlos de Carvalho, criou um personagem, namorado da melhor amiga de Antônia, que mora em Nova Iorque. Ele escreve na véspera do Onze de Setembro:
Nova Iorque, 10/09/2001

Cara Antônia,
O que eu queria te dizer é que a vida continua. Fiquei sabendo da sua história pela Isadora. Eu sei que já passou muito tempo, mesmo assim, resolvi escrever. Obviamente o mundo não acabou, como muitos diziam que iria acontecer em 2000, entretanto pode até parecer que isso tenha ocorrido com você. Embora tenham ocorrido coisas com você que ninguém merece, sendo, na minha opinião, a pior delas a perda de uma pessoa querida, a vida continua. A vida vale a pena.
Já me fiz as mesmas perguntas que você se fez e cheguei à conclusão de que temos apenas que aproveitar nossos momentos na Terra. Além do mais, mesmo não sendo religioso, não acredito que todas as perguntas serão respondidas.  Apesar disso continuo me fazendo perguntas que vão além das outras, como: precisamos de um motivo para viver?
Aliás, não sabemos o que virá depois. Talvez sua mãe tenha feito a escolha certa, mas eu prefiro esperar até que minha hora chegue. Mesmo com o sofrimento, também temos as alegrias da vida, por isso acredito que não estaria pronto para partir. Prefiro não encurtar meu tempo. Nós, que não somos fiéis à religião e que não acreditamos em destino, continuaremos nos fazendo perguntas sem respostas. É apenas importante que aproveite a vida.
Trabalho no World Trade Center em Nova Iorque e sou brasileiro. Isadora e eu nos conhecemos lá e não sei se você ficou sabendo, mas estamos namorando. Quando soube da sua situação, fiquei feliz em poder lhe escrever.
Boa sorte na sua carreira e nunca se esqueça: aproveite a vida, já que ela pode acabar a qualquer momento.
Beijos,
Felipe.