sexta-feira, 24 de junho de 2011

Do professor de Português

Eu tinha 17 anos quando Nelson Santieve me chamou para conversar. Ele me disse que eu tinha vocação literária e que devia encará-la como uma missão, independentemente do rumo profissional que eu tomasse. Afirmou ainda que sabia o que dizia, pois contava 39 anos de magistério.
Talvez seja uma das primeiras cenas da minha memória em que sou a protagonista. Eu ouvindo aquele homem, cujo tempo de profissão passava do dobro da minha idade. Aquele homem com quem eu conversava sobre Clarice Lispector. E que tinha sido aluno de Manuel Bandeira no Colégio Pedro II. 
Em seguida eu me formaria no Colégio Teresiano e correria, muitas vezes, o risco de perder a cena para outras personagens. Meu professor de Português, porém, sabia a importância da conversa à qual dera um tom solene. A literatura como missão. Os cadernos que se acumulavam ao longo dos anos. As leituras que se somavam.
Eu me exercitava, mas não chegava a escrever como queria. Em torno dos trinta anos, ainda não tinha os resultados esperados. Sentia-me longe da escritora que desejava ser, aquela apontada por Santieve na sala de aula. Mesmo assim, jamais passou por minha cabeça desistir.
Tenho pensado nisso há uns dias, desde que li (finalmente!) O filho eterno, de Cristóvão Tezza: “Ele não sabe ainda, mas bastou um breve fiapo de realidade mais difícil para que se apurasse seu senso de literatura”, afirma o narrador sobre o protagonista, um escritor de vinte e tantos anos, que sofre pelo nascimento de um filho com síndrome de Down.
Algo semelhante se deu comigo, a partir do câncer cerebral de minha mãe. Entre a descoberta da doença, em abril de 2002, e a morte dela, dez meses depois, meu corpo compreendeu a urgência da escrita. Aos trinta e poucos anos, eu me tornei a escritora que Santieve antevira. Desde então, escrevo para manter o lugar de protagonista entre as outras personagens, ou possibilidades, que me habitam. Escrevo por me escolher.