sexta-feira, 18 de março de 2011

"Não vale a pena escrever com pressa"

Costumo avisar no primeiro dia de aula que meu limite é o caderno. Ao dar um curso de criação literária, o que eu quero é compartilhar experiência. E o que eu conheço é o caderno. Este é o espaço onde me sinto à vontade e minha escrita faz sentido. É o que tenho para compartilhar. E tenho mesmo. Sempre escrevi. No caderno.
Recentemente passei a valorizar essa prática devido ao excesso de movimentação no mercado editorial. Publica-se demais. As livrarias não têm espaço nem condições gerais de manter tanto estocado e muitos comemoram a chegada do e-book... Aceleração maior à vista. Em meio às discussões sobre novas tecnologias, eu me pergunto sobre o espaço da literatura hoje.
Sim, é um problema. Porque a literatura está ao lado do silêncio. E atualmente faz-se muito barulho por todos os lados.
Parece que o escritor Milton Hatoum tem preocupação semelhante. Segunda-feira passada, ele conversou com leitores no projeto Rodas de Leitura, que a Estação das Letras promove mensalmente, no Rio de Janeiro. Aos quase 60 anos e com cinco livros publicados, afirmou: “Hoje há uma pletora, todo mundo é escritor. Nisso realmente falta crítica. Não vale a pena escrever com pressa e publicar qualquer coisa”.
Ele mesmo já escreveu um livro que preferiu não publicar. Segundo contou, seu primeiro romance teria setecentas páginas.  Anos depois, tempo passado e perspectiva possível, o original resultou em Dois irmãos, romance de duzentas páginas que, publicado em 2000, já é considerado um clássico por parte da crítica. O autor, porém, recusa o elogio: “Começaram a dizer que Dois irmãos era um clássico por causa de uma matéria do Paulo Roberto Pires no Globo que falava em clássico instantâneo. Mas não acredito nisso”.
Para um livro tornar-se clássico é preciso tempo, perspectiva histórica. Um livro atual não pode já ser um clássico. Mas provavelmente ao classificar Dois irmãos assim, inventando um híbrido clássico-contemporâneo, o crítico distinguia o livro dos demais lançamentos. Provavelmente também, pelo tempo de sua gestação. O tempo de escrever um original gigante e deixá-lo de lado para, anos depois, transformá-lo num romance bem menor. No caso, escrever sem pressa valeu literalmente a pena.

Um comentário:

  1. Se tiver o dom ou algo a dizer, até a pressa não chega a ser inimiga, nem por isso, perfeita; mas se assim não for, é melhor mesmo tomar um chá de cadeira e ver o que pinta... Adorei o blog, parabéns!!

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