sexta-feira, 25 de março de 2011

"É o traço autobiográfico que dá vida ao texto"

O projeto Rodas de Leitura, criado e coordenado por Suzana Vargas, da Estação das Letras, já existe há quase vinte anos. Com algumas interrupções, tem promovido encontros mensais entre milhares de leitores e centenas de escritores. Em janeiro de 2003, foi a vez de Lygia Bojunga, que lançava o romance Retratos de Carolina. Da plateia, partiu uma pergunta sobre os livros de Harry Potter. Ela disse que não tinha lido nenhum e que não pretendia ler. Outras pessoas elogiaram bastante a série. A escritora fechou a questão assim: “Mas é uma receita?”.
Na hora, achei exagerado o desprezo pela “receita”. Afinal, nos dois primeiros livros que lançou, Lygia seguiu uma à risca. Depois de anos escrevendo para rádio e televisão, usou as regras aprendidas e deu show. Ela mesma fala desse trabalho no primeiro livro de memórias: “Mas nesse tempo [em que trabalhava para rádio] o meu envolvimento com a escrita não mexia o fundo de mim; era um jeito aprendido de escrever, digamos assim; eu lia e observava como é que se escrevia pra rádio e depois seguia o modelo. Quando eu passei a traduzir, adaptar e escrever peças para a televisão, eu fazia a mesma coisa; e só lia livros de peças ou de como escrever pra tevê…” [1].
                Ao fechar a questão sobre o bestseller daquela maneira, porém, ela abriu este  caminho de reflexão por onde sigo. Enquanto escrevia minha tese sobre sua obra, levei horas folheando juvenis norte-americanos publicados em série. No capítulo sete, eu queria avançar na reflexão sobre a “receita” mencionada, mas não consegui. É difícil definir o limite entre a repetição da técnica aprendida, como talvez aconteça em Harry Potter, e o uso da técnica para enunciar algo novo, como certamente acontece em Os colegas e Angélica, primeiros livros de Lygia.
                Defendi minha tese há um ano, mas foi há poucos dias, num Rodas de Leitura, que pude dar um passo naquela questão. Milton Hatoum iluminou meu caminho: “É o traço autobiográfico que dá vida ao texto, que dá a verdade que o leitor procura”, afirmou. (Não, eu não estou sugerindo que os dois primeiros livros de Lygia sejam autobiográficos, até porque o primeiro conta a história de três cachorros, um coelho e um urso e o segundo fala de uma cegonha que fugiu de casa e conquistou o coração de um porco... Mas o espaço acabou e continuo outra hora.)



[1] In: Nunes, Lygia Bojunga. Livro, um encontro com Lygia Bojunga Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 1988, p. 49.


sexta-feira, 18 de março de 2011

"Não vale a pena escrever com pressa"

Costumo avisar no primeiro dia de aula que meu limite é o caderno. Ao dar um curso de criação literária, o que eu quero é compartilhar experiência. E o que eu conheço é o caderno. Este é o espaço onde me sinto à vontade e minha escrita faz sentido. É o que tenho para compartilhar. E tenho mesmo. Sempre escrevi. No caderno.
Recentemente passei a valorizar essa prática devido ao excesso de movimentação no mercado editorial. Publica-se demais. As livrarias não têm espaço nem condições gerais de manter tanto estocado e muitos comemoram a chegada do e-book... Aceleração maior à vista. Em meio às discussões sobre novas tecnologias, eu me pergunto sobre o espaço da literatura hoje.
Sim, é um problema. Porque a literatura está ao lado do silêncio. E atualmente faz-se muito barulho por todos os lados.
Parece que o escritor Milton Hatoum tem preocupação semelhante. Segunda-feira passada, ele conversou com leitores no projeto Rodas de Leitura, que a Estação das Letras promove mensalmente, no Rio de Janeiro. Aos quase 60 anos e com cinco livros publicados, afirmou: “Hoje há uma pletora, todo mundo é escritor. Nisso realmente falta crítica. Não vale a pena escrever com pressa e publicar qualquer coisa”.
Ele mesmo já escreveu um livro que preferiu não publicar. Segundo contou, seu primeiro romance teria setecentas páginas.  Anos depois, tempo passado e perspectiva possível, o original resultou em Dois irmãos, romance de duzentas páginas que, publicado em 2000, já é considerado um clássico por parte da crítica. O autor, porém, recusa o elogio: “Começaram a dizer que Dois irmãos era um clássico por causa de uma matéria do Paulo Roberto Pires no Globo que falava em clássico instantâneo. Mas não acredito nisso”.
Para um livro tornar-se clássico é preciso tempo, perspectiva histórica. Um livro atual não pode já ser um clássico. Mas provavelmente ao classificar Dois irmãos assim, inventando um híbrido clássico-contemporâneo, o crítico distinguia o livro dos demais lançamentos. Provavelmente também, pelo tempo de sua gestação. O tempo de escrever um original gigante e deixá-lo de lado para, anos depois, transformá-lo num romance bem menor. No caso, escrever sem pressa valeu literalmente a pena.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Aula de Português 2

Foi a dona Sônia também que me fez tomar o gosto por reescrever. Comecei a mando dela, com as redações, na quinta série. Ela marcava os erros de português e os pedaços que estivessem mal escritos. A gente ia para a outra página do papel almaço e reescrevia. Acima, a palavra mágica: reescritura. Dependendo do caso, quando a segunda redação ainda não estava boa, ela pedia uma segunda: reescritura. Hummmmmm… Por mim aquilo não acabaria nunca!

A dona Sônia aproveitava cada letrinha quando falava. Demorava-se nas sílabas, caprichava na entonação, fazia pausas. Falava tudo bem certinho, como os bons professores de língua estrangeira costumam fazer. Era tão bom ouvir o português falado com tanto vagar e amor! Neste tom, ela explicava que, antes de escrever qualquer texto, a gente devia pensar numa divisão entre o começo, o meio e o fim dele. Até os parágrafos, cada um, podem ser trabalhados assim, ela explicava: tópico frasal, desenvolvimento e conclusão. Clímax. Hummmm… isto é muito bom!

Guardei parte das redações que escrevi. Lendo uma a uma, percebo que, na época da dona Sônia, ainda não fazia textos bons como passaria a fazer ali pela oitava série ou já no segundo grau. Mas gostava muito de escrevê-los! Eu estava em plena descoberta da alegria de escrever! Eram muitas redações e era uma alegria suave, ainda tenho nos ouvidos o som da esferográfica vermelha sobre o papel almaço, enquanto a régua marcava a margem que eu desenhava. Então, já de caneta azul em punho, eu pulava - para um mundo que eu inventava. Eu também, Raquel, eu também! Ah, como eu gostava do intervalo no colégio: redação.