sábado, 19 de fevereiro de 2011

Na contramão

Diz-se que o mercado editorial brasileiro se profissionalizou nos últimos quinze anos. O trabalho, antes realizado entre parentes, deu lugar a funcionários da área de Comunicação. A direção de marketing deu as mãos à direção editorial. Editoras tradicionais passaram a compor grandes grupos. Pequenos editores não param de surgir, valendo-se da tal profissionalização. Enquanto ouvia a editora Maria Amélia Mello (José Olympio) falar sobre isso, em palestra na Estação das Letras, há duas semanas, eu tinha um contraexemplo em mente.
Minha querida Lygia Bojunga fundou a própria editora em 2002. Lembrando as casas-editoras do século passado, criou o nome Casa Lygia Bojunga. A premiada autora, que quase todo editor gostaria de ter em seu catálogo, foi paulatinamente relançando seus livros, logo que os contratos expiravam. Além de lançar novos. Radical, deu ainda um formato de coleção ao conjunto da obra, independentemente do gênero textual. Assim, Os colegas e Angélica, decididamente “infantis”, Aula de inglês e Querida, notadamente “adultos”, O Rio e eu e Feito à mão, livros de memórias, têm o mesmíssimo formato.
Atualmente, os 22 títulos da autora são publicados pela Casa Lygia Bojunga. Os livros são pequenos e têm uma aparência delicada, lembrando as publicações francesas do século 19. Na moldura da capa, na lombada e na contracapa, todos têm a cor amarelo-claro e as letras pretas. Os desenhos da capa obedecem a apenas duas variações: quando não têm cores fortes, são em preto e branco. A diagramação do texto do miolo também não muda: o tipo usado é o Centaur, no corpo 12,5 ou 13,5, as ilustrações são escassas e os parágrafos alinhados somente à direita.
Trabalhei como livreira na Travessa de Ipanema por um ano e recolhi histórias às vezes bizarras sobre a dificuldade causada por este formato na hora da escolha na loja. A Casa Lygia Bojunga segue na contramão do mercado editorial, que cada vez mais se segmenta e se dirige a um público-alvo. Desde as capas, a maioria dos livros sai com endereço de destino. Por isso naquela palestra, há duas semanas, comecei a me perguntar sobre a interferência do projeto editorial de Lygia na leitura do seu texto. Tenho uma hipótese, claro. Quem me acompanha já notou que não paro de pensar nessa obra. Vou então pensar ainda mais, antes de lançar minha nova hipótese aqui.

2 comentários:

  1. Que muitos outros pós-docs possam sugir com tantas hipóteses e boas ideias.
    Idependente do nome Lygia Bojunga e da qualidade literária, como é que fica a visibilidade das obras nas livrarias?

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  2. Oi, Dag, a visibilidade fica por conta do nome e de imagens, como a da capa de A Bolsa Amarela, que ainda tem a mesma ilustração dos anos 70 e chama atenção de adultos que passam perto. Mas a obra não tem o destaque merecido, como aliás tantas outras. Temos livros demais!

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