segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Literatura para quê?"

Sábado de manhã, entrei numa livraria com esta pergunta na cabeça. Logo descobri um livro que a tem como título: “Literatura para quê?”, tradução da aula inaugural de Antoine Compagnon no Collège de France, em 30/11/2006. O livrinho, de apenas 57 páginas e editado pela UFMG, põe palavras na angústia que me deixou esse tempo sem escrever (nem aqui, nem no caderno, nem em lugar nenhum). Literatura para que mesmo? Como pude escrever tanto? Será que devo guardar o que escrevo somente para mim? Alguém ainda se importa com o valor poético? Já existem tantos livros à venda, qual o sentido de publicar mais um?
Compagnon parte do princípio de que literatura e modernidade sempre viveram em conflito, para concluir que uma faz parte da outra. Por isso, apesar do espaço que vem perdendo, a literatura continuaria insubstituível: “Ela sofre concorrência em todos os seus usos e não detém o monopólio sobre nada, mas a humildade lhe convém e seus poderes continuam imensos; ela pode, portanto, ser abraçada sem hesitações e seu lugar na Cidade está assegurado. O exercício jamais fechado da leitura continua o lugar por excelência do aprendizado de si e do outro, descoberta não de uma personalidade fixa, mas de uma identidade obstinadamente em devenir”.
Para um escritor, perguntar sobre o sentido da literatura é perguntar sobre o sentido da vida. Não escrever, para nós, equivale a não viver. Talvez seja bom voltarmos a uma reflexão dessas de tempos em tempos. Rever assim nossas metas e ajustar a rota. Neste ajuste que ora faço, dou um passo importante. Chego finalmente a um projeto de pós-doc, quase um ano após a defesa da tese de doutorado. Nesta pesquisa, meus alunos das oficinas literárias terão um papel decisivo. Afinal, são eles que me animam a continuar.

3 comentários:

  1. A literatura serve, por um momento, para vivermos a vida dos outros e, em seguida, refletirmos e mudarmos a nossa.

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  2. A literatura ocupará cada vez mais o lugar da "besteira e do inútil" que é o lugar da arte. Vale uma palavra de explicação: besteira é o que é desprezível pela sociedade utilitária, é o lapso e o chiste, por exemplo. Ou seja, um fora-de-lugar, um estrangeiro na ordem. A inutilidade da arte só tem valor para encantar o olhar sensível, o espírito. É pouco?
    Estou gostando muito de ler seus textos.
    Continue. beijo

    MARUZA

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  3. Ana, gosto muito desses teus textos reflexivos.
    Na contramão (possivelmente porque não sou uma escritora "de verdade"), deixei a escrita de lado para viver.
    Talvez retome um dia, talvez não. O fato é que hoje tenho muito mais prazer na leitura do que antes.
    Tentando escrever, acho que me tornei uma leitora melhor. E, como leitora, te desejo muito sucesso!

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