sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Aula de Português

O Facebook tem propiciado encontros virtuais frequentes entre a turma do colégio Teresiano. Daí a ideia de compartilhar na rede esta lembrança que tenho guardada na minha tese de doutorado. O ponto de partida é A bolsa amarela, um dos mais conhecidos livros de Lygia Bojunga. Pois quando o Teresiano programou esta leitura, eu já tinha lido o livro uns dois ou três anos antes. Dois ou três anos, quando se é criança, é muito tempo, então estranhei que a gente fosse ler um livro de criancinha... Qual não foi minha surpresa, porém, quando a dona Sônia abriu os nossos olhos para as nuances da linguagem literária!
Metáfora. Metonímia. Onomatopeia. Conotação. Linguagem figurada. Gíria. Modo de dizer. Abreviação. Pra. Tá. Um galo que conversa. Uma guarda-chuva que namora com ele. A história se passava como se fosse um livro para criancinhas, mas era também um livro para pré-adolescentes, adultos, para sempre. E como se fosse um abraço apertado eu não larguei mais A bolsa, como a protagonista e narradora Raquel faz com o alfinete de fralda, no meu romance onde me escrevo, A bolsa ficou guardada dentro de mim assim:
Então, quando a dona Sônia foi explicar a metáfora ela deu, entre outros exemplos, a frase: “Fui dormir na maior fossa de ser criança podendo tão bem ser gente grande”.[1] Nunca me esquecerei da surpresa ao descobrir que existia um espaço concreto chamado fossa. Pra mim, estar na fossa é que era concreto... Como eu pensava que era concreto estar triste ou alegre... Mas não! Estar na fossa, conforme eu reaprendia, era uma coisa escrita por alguém. Lygia tinha selecionado um modo de dizer um modo de sentir. Estar na fossa era também estar no fundo de alguma coisa de onde se poderia sair. Estar na fossa era sentir algo desagradável, mas ao mesmo tempo poder dizer aquilo de uma forma criativa.
Quer dizer que os moradores da bolsa podem ser lidos, também, como criações da Raquel, seus amigos invisíveis, sonhos dela, modos de ela pensar… Quer dizer que a gente pode estar no buraco um dia e não estar mais no outro? Na minha primeira leitura do livro, outras coisas tinham-se ressaltado! Reler é melhor ainda do que ler!, descobri.



[1] In: Bojunga, Lygia. A bolsa amarela. Casa Lygia Bojunga, 2007: 13.



sábado, 19 de fevereiro de 2011

Na contramão

Diz-se que o mercado editorial brasileiro se profissionalizou nos últimos quinze anos. O trabalho, antes realizado entre parentes, deu lugar a funcionários da área de Comunicação. A direção de marketing deu as mãos à direção editorial. Editoras tradicionais passaram a compor grandes grupos. Pequenos editores não param de surgir, valendo-se da tal profissionalização. Enquanto ouvia a editora Maria Amélia Mello (José Olympio) falar sobre isso, em palestra na Estação das Letras, há duas semanas, eu tinha um contraexemplo em mente.
Minha querida Lygia Bojunga fundou a própria editora em 2002. Lembrando as casas-editoras do século passado, criou o nome Casa Lygia Bojunga. A premiada autora, que quase todo editor gostaria de ter em seu catálogo, foi paulatinamente relançando seus livros, logo que os contratos expiravam. Além de lançar novos. Radical, deu ainda um formato de coleção ao conjunto da obra, independentemente do gênero textual. Assim, Os colegas e Angélica, decididamente “infantis”, Aula de inglês e Querida, notadamente “adultos”, O Rio e eu e Feito à mão, livros de memórias, têm o mesmíssimo formato.
Atualmente, os 22 títulos da autora são publicados pela Casa Lygia Bojunga. Os livros são pequenos e têm uma aparência delicada, lembrando as publicações francesas do século 19. Na moldura da capa, na lombada e na contracapa, todos têm a cor amarelo-claro e as letras pretas. Os desenhos da capa obedecem a apenas duas variações: quando não têm cores fortes, são em preto e branco. A diagramação do texto do miolo também não muda: o tipo usado é o Centaur, no corpo 12,5 ou 13,5, as ilustrações são escassas e os parágrafos alinhados somente à direita.
Trabalhei como livreira na Travessa de Ipanema por um ano e recolhi histórias às vezes bizarras sobre a dificuldade causada por este formato na hora da escolha na loja. A Casa Lygia Bojunga segue na contramão do mercado editorial, que cada vez mais se segmenta e se dirige a um público-alvo. Desde as capas, a maioria dos livros sai com endereço de destino. Por isso naquela palestra, há duas semanas, comecei a me perguntar sobre a interferência do projeto editorial de Lygia na leitura do seu texto. Tenho uma hipótese, claro. Quem me acompanha já notou que não paro de pensar nessa obra. Vou então pensar ainda mais, antes de lançar minha nova hipótese aqui.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Literatura para quê?"

Sábado de manhã, entrei numa livraria com esta pergunta na cabeça. Logo descobri um livro que a tem como título: “Literatura para quê?”, tradução da aula inaugural de Antoine Compagnon no Collège de France, em 30/11/2006. O livrinho, de apenas 57 páginas e editado pela UFMG, põe palavras na angústia que me deixou esse tempo sem escrever (nem aqui, nem no caderno, nem em lugar nenhum). Literatura para que mesmo? Como pude escrever tanto? Será que devo guardar o que escrevo somente para mim? Alguém ainda se importa com o valor poético? Já existem tantos livros à venda, qual o sentido de publicar mais um?
Compagnon parte do princípio de que literatura e modernidade sempre viveram em conflito, para concluir que uma faz parte da outra. Por isso, apesar do espaço que vem perdendo, a literatura continuaria insubstituível: “Ela sofre concorrência em todos os seus usos e não detém o monopólio sobre nada, mas a humildade lhe convém e seus poderes continuam imensos; ela pode, portanto, ser abraçada sem hesitações e seu lugar na Cidade está assegurado. O exercício jamais fechado da leitura continua o lugar por excelência do aprendizado de si e do outro, descoberta não de uma personalidade fixa, mas de uma identidade obstinadamente em devenir”.
Para um escritor, perguntar sobre o sentido da literatura é perguntar sobre o sentido da vida. Não escrever, para nós, equivale a não viver. Talvez seja bom voltarmos a uma reflexão dessas de tempos em tempos. Rever assim nossas metas e ajustar a rota. Neste ajuste que ora faço, dou um passo importante. Chego finalmente a um projeto de pós-doc, quase um ano após a defesa da tese de doutorado. Nesta pesquisa, meus alunos das oficinas literárias terão um papel decisivo. Afinal, são eles que me animam a continuar.