segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O espaço do caderno

Fim do ano fiz uma arrumação daquelas. Então não resisti a parar e ler meu primeiro diário, um caderno em forma de coração, onde escrevi entre os dez e os 14 anos. Foi divertido, por exemplo, lembrar da raiva que senti de um menino de quem gostei. No colégio, ele fez qualquer gracinha para chamar minha atenção; chegando em casa, relatei a cena e desabafei: “Realmente, o ódio está muito perto do amor!”
Lygia Bojunga também escreveu seus diários, pelo menos entre os 16 e os 19 anos. Segundo ela narra em Livro, um encontro, parou ao decidir que seria médica: “E limpando gaveta pra minha papelada de vestibular, eu tive um acesso de hoje-eu-começo-vida-nova-o-passado-passou e rasguei os meus cadernos. Todos.”[1]  O projeto de ser médica duraria apenas um ano, mas a prática de escrever à mão retornaria com força.
Sim, porque escrever não era uma decisão, mas uma necessidade. “(...) eu tinha que escrever”, reconhece. E o fazia numa “escrita apressada, de letra virada garrancho, toda esquecida dos exercícios de caligrafia de quando eu era criança. Era um registro compulsório de tudo o que me acontecia; emoção, dúvida, tristeza, expectativa, estava tudo lá.” Sim, já estava tudo lá. E iria retornar, apesar da lata de lixo. Mas é uma pena, não é? Imagino como seria interessante para a autora, hoje, ler seus cadernos de... seis décadas atrás!
Quando Lygia lançou Livro..., eu tinha 18 anos e reunia diários desde os dez. Não foram poucas as vezes em que me lembrei, durante arrumações de gavetas e armários, de que ela tinha jogado seus cadernos fora. Eis um risco que não corri e talvez saber do arrependimento da minha querida escritora tenha ajudado, não sei. O fato é que ao longo dos anos, arrumação após arrumação, ao abrir espaços para novas fases, cada vez mais fui entendendo que algo devia permanecer. Algo que se configura de maneira precisa nos cadernos que tenho guardados. Algo que já estava lá, inteiro, na escrita urgente que leio hoje -  no meu caderno em forma de coração e nos seguintes.
Falei de arrumações e projetos e espaço para o novo. Falei de como os cadernos são importantes para me impedir de planejar ser quem eu não sou. Meus cadernos têm ainda outra função, tão relevante quanto, em tempos de desesperança. Refiro-me a quando não se tem energia para arrumações, quando um novo espaço parece impossível, quando soam irritantes palavras como “projeto”, “futuro” e “determinação”. Nessas horas, meus cadernos sopram em meu ouvido que ainda pode valer a pena seguir. Pois, daquela menina que descobria as formas paradoxais do amor, o essencial ficou. Apesar de tudo o que se perdeu.



[1] Esta citação e as seguintes são de: BOJUNGA, Lygia. Livro, um encontro com Lygia Bojunga Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 1988, pp. 37-38. Atualmente a obra é editada pela Casa Lygia Bojunga que reduziu o título para Livro, um encontro.