sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Porque escrevo

          “Se soubéssemos algo daquilo que se vai escrever, antes de fazê-lo, antes de escrever, nunca escreveríamos. Não ia valer a pena.”
          (Marguerite Duras, no livro Escrever)

          “Os jovens escritores buscam fórmulas, truques, regras. Lutam para chegar ao bem escrever. Não sabem viver sem uma boa coerção. Querem notas, aprovações, títulos. Nada disso interessa ao escritor. A literatura é o terreno da liberdade. Terra de ninguém, nela as qualidades e os defeitos têm o mesmo valor. Até porque é impossível separá-los.”
           (José Castello, “Apologia dos defeitos”, no blog A literatura na poltrona)

           “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.”
            (Clarice Lispector, no romance A paixão segundo GH)

          “Quando um livro inteiro sai de dentro da pessoa, é inevitável o estado particular de uma certa solidão que não se pode partilhar com ninguém. Não se pode fazer nada para partilhar isso. É preciso ler sozinho o livro que se escreveu, enclausurar-se no livro.”
            (Marguerite Duras, Escrever)

          “E, de fato, muito do que nós próprios consideramos indispensável para uma obra de ficção pode vir a se revelar supérfluo à medida que avançamos em nossas leituras. Se a cultura estabelece uma série de regras que o escritor é instruído a observar, a leitura nos mostrará como elas foram ignoradas no passado, e como isso teve um resultado feliz. Assim, permita-me repetir mais uma vez: a literatura não só infringe regras como nos faz compreender que não existe regra alguma.”
            (Francine Prose, no livro Para ler como um escritor)

          “Cada livro, como cada escritor, tem alguma passagem mais difícil, incontornável. E ele deve tomar a decisão de deixar este erro no livro para que permaneça um livro verdadeiro, e não de mentira.”
              (Marguerite Duras, Escrever)

              “Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar – uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras”.         
                (Clarice Lispector, no conto “Os desastres de Sofia”)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fio de voz (desde 2004)

Marcelo fazia uma picanha na chapa. “E não é domingo nem nada...”, comentou Daiana. Claro que ninguém ouviu. Por essas e outras, preferia ser muda. Se fosse, não ouviria seu fio de voz que, às vezes, insistia em sair. “Ai, meu Deus...”, dizia. “Que horas são...?”, esquecia de não falar.  “O dia hoje está bonito...”, pensava alto. Ninguém prestava atenção nunca. Todo mundo naquela casa só queria ver televisão. Vinte e nove polegadas, tela plana, som sei lá o quê, imagem não sei o que lá. Todas as tardes, Marcelo ficava passando de um a outro canal da televisão. Todas as noites, os pais dele, Álvaro e Izabel, faziam questão de assistir à programação de um só canal da televisão. Enquanto Daiana... Daiana era a prima.
Pelo menos, assistia à novela. Todas as noites, junto aos três. Heloísa estava sendo julgada. Inocente, era acusada por tráfico de drogas. “Tomara que seja absolvida!”, Daiana exclamava em pensamento. A carne ficou pronta. Que cheirinho mais gostoso! Marcelo serviu a mãe, serviu o pai e se serviu. “Também quero...”, pediu a prima. Claro que ninguém ouviu. Com exagero, Marcelo comia. Álvaro, com prazer. Izabel, com moderação. Enquanto Daiana, Daiana esquecida. “Será que ninguém vai me oferecer...?”, insistiu. Claro que ninguém ouviu. Então a corda apertou sua garganta. Sempre a corda, o nó e a dor. Portanto Daiana, Daiana inaudível.
O capítulo terminou antes que o juiz desse a sentença. Marcelo trocou de canal. Izabel discutiu: sempre divergiam quanto à televisão. Álvaro apoiou a mulher: “Já combinamos que, à noite, não se muda o canal da televisão!”. A picanha já devia estar fria, mas Daiana ainda tinha fome. Seu estômago roncava e sua cabeça rodava. Aproximou-se da sobra na chapa. Não havia mais pedaço cortado. Então cortaria a pontinha. Adorava carne tostada.
Pegou a faca.
Com que facilidade cortou! Carne boa, faca afiada. Daiana nem usou prato: sua fome tinha pressa. Mastigou rapidamente. O nó da garganta apertou. O pedaço não desceu. Daiana não pôde engolir. O estômago roncando, a dor na garganta. Daiana não suportou: cuspiu a carne no chão. Mas limparia logo. Onde guardavam os panos? Era só perguntar de bem perto. Claro que Izabel ouviria. Cochichou com a dona da casa: “Posso lhe falar um instante?”. Atenta à televisão, Izabel ainda não ouviu. Mas Daiana tinha a faca na mão. 
O vestido esquentava. O sutiã apertava. A roupa, a fome. O nó na garganta. A solução nas mãos. Foi então que conseguiu: com a faca da carne da chapa, Daiana cortou a corda que amarrava sua voz... Todo mundo a ouviu, afinal.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Clarice e o búfalo

Sofrendo por amar quem não a ama, mulher quer aprender a odiar. Decidida a tomar lições com animais, vai ao zoológico. “O búfalo”[1], conto de Clarice Lispector, obedece à estrutura clássica das narrativas do gênero, que leva o protagonista a lutar por um objetivo, em tensão crescente. Narra, porém, pelo avesso. A luta da personagem é interna; o desenlance é a vertigem.
            De forma incomum, a palavra “mas” inicia a história: “Mas era primavera”. Era primavera, mas o inverno era cruel dentro da mulher. Parece que foi ao zoológico em busca de tórrido verão: o calor do ódio. “Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas”, lê-se no início do segundo parágrafo. “Mas é primavera”, repete-se, para dar início ao parágrafo três. Mas, mas... tudo ao contrário do que esperava encontrar. Até ver o búfalo.
            A troca de olhares entre a mulher e o búfalo constitui o clímax da narrativa. O ponto em que o conflito (interno) chega ao máximo e se configura em mal-estar insuportável para ela. Queria aprender a odiar e, quando finalmente tem aula, desfalece. Ter ódio requer a tranquilidade do animal: “O búfalo com o torso preso. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranquila raiva, a mulher suspirou devagar”. A anti-heroína, em contraste, vive atordoada entre o susto, o medo e a impotência diante do outro. Modo de viver dramatizado pelo passeio na montanha-russa: “Mas de repente foi aquele voo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto (...)”.
            O texto expõe pelo menos três marcas recorrentes na obra de Clarice. Em primeiro lugar, está presente a epifania – quando, através de fatos corriqueiros, personagens experimentam a visão crua do real. Em segundo lugar, o desamparo – não apenas característica do protagonista, mas sua motivação. Por último, destaca-se a correspondência entre a história contada e a biografia da autora. Em carta às irmãs, ela definiu assim sua razão de narrar o conto: “Um dia desses tive um ódio muito forte, coisa que eu nunca me permiti; era mais uma necessidade de ódio. Então escrevi um conto chamado O búfalo (....)”[2]



[1] Conto do livro Laços de família, publicado atualmente pela Rocco.
[2] In: LISPECTOR, Clarice. Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco. pp. 268-270.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mulher por um dia (desde 2000)

Em meia oito, a gente tomava pílula e abria as pernas para a tal liberação sexual... Mentira... Sou dessas que em meia oito estudavam em colégio de freira e achavam que trepar era subir em árvore. Anos depois, casei-me virgem e nunca tive outro homem que não meu ex-marido. Comecei tentando encontrar uma narradora, como sempre. Mas está difícil, hoje.

Hoje acordei opaca porque esta noite me deitei com um homem qualquer. Desde que me separei, todos os homens por quem me interessei eram casados, ou só queriam saber de mulheres jovens. Os que se interessaram por mim... Na verdade, desde que me separei, nunca fui paquerada. Mas ia bem assim, sabe? Até que me olhei no espelho outro dia. Vi uma mulher tão só que fiquei com pena de mim. Vi a falta que me faz a felicidade de quem ama e é amado. Foi então que pensei nesse esquema: resignar-me a ser amada e a amar – de mentira.

Trouxe o estranho para minha casa. Ofereci uísque doze anos, vinho francês, um jantar de primeira e o meu corpo de segunda. A gente até que estava se entendendo. Mas, na hora, ele se recusou a usar preservativo. Desisti. Pedi para ele sair e nunca vir a me procurar. O que se seguiu, foi a saudade do tempo em que eu era moça e amava meu marido...

O leitor deve estar pensando: mas o que deu na Maria Fernanda? Sempre traz histórias instigantes para este espaço, mas hoje apela para um confessional sem graça, sem clímax, sem nexo! É que esta que ora escreve sente-se cansada... E, sabe, leitor, publicar toda semana neste jornal, faz com que eu me sinta sua amiga íntima... Me desculpe, sim? Me desculpe pelo abuso. É que estou tão precisada de não inventar um narrador... Eu quero ser uma mulher, nem que seja por um dia.

O que me restou da vida que levei? O que me restou, senão esta opressão no peito? Estou ruim mesmo, hoje. Ah, Deus, por favor... por favor, me ajude a transformar a dor em histórias bonitas. Se não foi na vida, que seja na prosa.


Nova turma de oficina literária nos quatro sábados de novembro!
Para informações e inscrições, clique:




sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Tratamento literário

Dia 5 de novembro começo uma nova turma de autoficção, na Estação das Letras. A ideia é motivar a escrita a partir de elementos da memória pessoal; o resultado pode ser mais ou menos ficção: o que se quer é usar objetos, imagens ou diários guardados e desencadear um novo texto. Para isto, crio exercícios a partir da minha própria experiência com as letras.
Como a leitura de Memórias da Emília, onde Lobato ironiza, pela voz da boneca, a escrita autobiográfica de homens considerados notáveis. Decidida a escrever suas memórias, a boneca inventa, entre outras, que é grande amiga de Shirley Temple, com quem chegou a estrelar um filme: “São memórias fantásticas”, justifica.[1]
Costumo falar deste livro ao iniciar uma nova turma e, certa vez, uma aluna me perguntou se deveria “dourar a pílula” como Emília, isto é, fazer sua vida parecer mais interessante. Claro que não. Milton Hatoum, por exemplo, diz ter feito o contrário em Dois irmãos.[2] No romance, fatos do passado de sua família foram reinventados para criar uma atmosfera de desilusão, onde tudo daria errado. Já Cristóvão Tezza resolveu escrever O filho eterno quando, já reconhecido pela crítica, pensou consigo mesmo que ainda precisava escrever sobre o fato de ter um filho com síndrome de Down.[3] O livro, apesar de romanceado, não parece atenuar o drama vivido.
Na outra ponta, dois exemplos de memórias não ficcionalizadas senão pelo recorte. O Feito à mão, de Lygia Bojunga, reúne textos relacionados à prática do artesanato pela autora. Na capa, uma tapeçaria feita pela mãe de Lygia. No prefácio, um texto narrando a produção quase artesanal da primeira edição do livro.  A jovem Valéria Polizzi, por sua vez, ao compartilhar publicamente a experiência de ter sido uma das primeiras mulheres brasileiras infectadas pelo vírus da aids, parece buscar a sinceridade possível: “Mas acontece que eu era virgem, nunca tinha usado drogas e obviamente não sou gay. O que aconteceu então? É simples, transei sem camisinha”.[4]
No universo da oficina, são considerados de autoficção, portanto, textos situados entre a representação (impossível) na escrita de si e a simulação sem referência pessoal. A crítica é inevitável: admitindo um espectro tão largo, toda literatura seria autoficcional. Isto é, a oficina seria simplesmente “literária”. Sim! Mas entre oficinas “de contos”, “de romances”, “de crônicas”, “de literatura infantil” etc., a especificidade desta é dar a ver a cada aluno os elementos de sua memória que merecem tratamento literário. Sem limite de gênero textual.



[1] LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília. São Paulo: Globo, 2007. p.83
[2] Segundo depoimento no projeto Rodas de Leitura, da Estação das Letras, em  14/03/2011.
[3] Segundo depoimento no projeto Rodas de Leitura, da Estação das Letras, em 13/12/2010.
[4] POLIZZI, Valéria Piassa. Depois daquela viagem. São Paulo: Ática, 2002. p.8


domingo, 2 de outubro de 2011

Bebe comigo (desde 1998)

— Ronaldo?
— Você é...
— Ronaldo, faz vinte anos... vinte anos que eu não te vejo!
— Madalena!
— Arrependida.
— Madalena... Madalena, quem diria, bebendo sozinha nesse bar sombrio!

— E você, o que faz por aqui?
— Entrei só pra comprar cigarro. Estou indo pra análise, aqui do lado.
— Dá tempo de tomar um copo comigo, não dá?
— Um só dá.
— Senta aí.
— E então, Madalena? Arrependida de quê?
— Você não fumava...
— Nem você... Mas conta, me fala de você.
— Ah, não, Ronaldo. Vamos falar de coisa alegre. Conta você. Fala da sua vida.
— Estou me lembrando daquela noite... quando você terminou tudo comigo. Não acreditei, achei que ia morrer. Não morri, mas quase.
— Eu era atriz... ou queria ser. Aí, pintou aquele cara com um papo de me lançar profissionalmente... Achei que era sério, que ele queria me namorar... Quanta ingenuidade!
— Você não ficou com ele?
— Se aquele paraíso prometido tivesse dado certo, eu não estava aqui hoje, enchendo a cara nessa espelunca.
— O que aconteceu?
— Ele não gostou quando eu disse que tinha rompido com você. Falou que não curtia exclusividade, que não... Enfim, não queria nada, foi tudo bobagem minha.
— Sofri tanto quando tudo aquilo aconteceu, Madalena. Sofri tanto que passei dois anos da casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Não tinha mulher nenhuma que me chamasse a atenção. Foi a pior fase da minha vida.
— O pior, Ronaldo, o pior é que, dois meses depois, descobri que estava grávida. De três meses. Eu não sabia de quem o filho era, falei pro Marcos que era dele, ele me deu dinheiro pra abortar e me mandou sumir.
— Aí, Madalena, consegui uma promoção ótima lá na empresa. Fui transferido pra Nova Iorque. Me dei bem. Logo, logo, conheci por lá uma brasileira, casei em poucos meses.
— Eu estava tão transtornada, eu era muito jovem, muito boba. Fiz o aborto. Fiz o aborto e até hoje não sei de quem era. Será que era seu filho?
— Tenho quatro filhos. Estão crescidos já. Mesmo assim, não aceitam que eu tenha me separado da mãe deles.
— Você se separou? Eu também. Quer dizer, ainda não te contei. Pra guardar uma parte do dinheiro que o Marcos me deu pro aborto, acabei fazendo num lugar horrível. Resultado: fiquei sem filho e sem útero... Depois disso, comecei a trabalhar numa galeria de arte. Lá, conheci um artista plástico e ficamos casados anos.
— A minha filha também já fez um aborto. A mais velha.
— O Maurício sabia das minhas escapadas, ele não reclamava, ele sabia que... Você sabe. Ele sabia que não me satisfazia.
— A minha mulher me satisfazia, sim. Mas aí eu me apaixonei pelo Paul.
— Mas o Maurício foi ficando deprimido, deprimido... Até que enfiou a cabeça no forno. Cheguei em casa e senti aquele cheiro de gás...
— Sabe, Madalena, eu estava numa boa lá com o Paul, aí ele...
— Já faz oito anos. Há oito anos fiquei viúva.
— ...me falou que ia pra Califórnia com um cara...
— Puxa, Ronaldo...
— Me vi em Nova Iorque tão sozinho, minha mulher não fala mais comigo, meus filhos esqueceram que têm pai...
— Para com isso, Ronaldo...
— Mês passado, pedi demissão e voltei.
— E veio encontrar logo quem!
— ...
— ...
— Já está na minha hora. Adorei te rever!
— Muito obrigada por beber comigo, Ronaldo.
— Bebe comigo outra vez, Madalena.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O blog amarelo

Faz tempo que divido minha vida em espaços, como cadernos, envelopes, pastas, caixas ou gavetas.  Dizem que sou muito organizada e talvez esta seja a chave: um espaço para cada fio de história. Assim, quando terminei meu doutorado, já alimentava o envelope do “pós-doutorado”. Tinha tópicos que não haviam entrado na tese, artigos não usados, enfim, modos de continuar minha pesquisa – no labirinto amarelo.
O envelope, lembro bem, comecei em meados de 2009, durante meu estágio na Universidade Nova de Lisboa. Menos de um ano depois, tese defendida, ele estava para arrebentar. Então, comprei a pasta, grossa e amarela, que logo lotou. Por algum tempo, não mexi mais nela: deixei-a na prateleira, pensando. Sim, os espaços pensam.
Por exemplo, no que me disse Renato Cordeiro Gomes, em meados de 2010. Ele tinha me orientado no doutorado recente, então o procurei para conversar sobre um possível pós-doutorado. Ouvi que eu devia decidir se queria “ser escritora” ou “ter vida acadêmica”.
Por exemplo, no que disse a professora Vera Follain, no meu exame de qualificação. Para ela, se eu quisesse fazer uma tese de doutorado sobre a obra de Lygia Bojunga, eu tinha que me distanciar da imagem da autora. As opções seriam ir fundo num romance... ou mudar o objeto. Era dezembro de 2007.  
Nas palavras da professora Marília Rothier, no mesmo exame. Foi ela que apontou, no meu próprio projeto de tese, o caminho da autoficção de leitora, que finalmente escrevi. Obrigada, Marília!
E também no que me disse, mês passado, a professora Ana Cláudia Viegas, que cheguei a sondar para minha supervisão de pós-doutorado: “Tem que distanciar!”.
Em termos gerais, não vejo incompatibilidade entre a prática acadêmica e a prática literária. Minha pasta amarela, porém, precisava pensar no seu caso específico. Por fim, entendendo que, atualmente, a distância crítica ocuparia o espaço da minha prática criativa, interrompi o projeto de pós-doutorado. A parte escrita, imprimi e guardei na minha nova caixa, amarela.
Faz uns quinze dias que comprei. Foi logo depois da conversa com Ana Cláudia (a pasta já ia espocar). A caixa é das grandes, bonita e oportuna. Enfeita meu quarto e ilumina o ambiente. Rápida, já pensou um novo espaço, O blog amarelo.Você é bem-vindo por lá!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Oficina de autoficção

Quando criei a oficina, minha ideia era vaga. Era mais uma aposta do que um plano de trabalho. Sabia que gostaria de compartilhar minha forma de escrever/viver. Pensei que a Estação das Letras seria um bom lugar. Ainda não conhecia a Estação... E não tinha a menor ideia de quem seriam os alunos... A oficina era um risco, um improviso. No qual só tive coragem de me lançar porque o desejo era forte demais. Hoje, três anos e meio depois, li uma crônica que é como um presente. Veio de um aluno da turma atual, Rodolpho Sauret, e foi publicada originalmente no blog dele, http://natampadacaneta.blogspot.com :  

Autoficção

Às segundas eu costumava sentar no sofá do consultório com os pés descalços e, fato raro, falar quase sem parar. Quando sobrava tempo para ouvir, o verbo se repetia: expandir. A cada vez que o assunto retornava, eu eliminava as possibilidades com a alegação mais sincera: falta de interesse. Acabei percebendo que apenas a minha satisfação pessoal seria capaz de trazer alternativas para a expansão. Por isso, terminava a sessão falando do blog, das ideias que tinha para divulgá-lo, do retorno que eu tinha dos amigos leitores, da surpresa que era escrever tanto e tão fácil. Foi assim que expandir se tornou sinônimo de escrever melhor.
A terapia já tinha passado a ser quinzenal quando me deparei com a ementa do curso de Autoficção da Estação das Letras. Reconheci ali boa parte dos meus textos em perguntas simples: “Ao lembrar, inventamos? Quem somos senão quem decidimos ser?” Percebi que a questão não era apenas escrever melhor, mas entender motivações e encontrar direções. Desde a primeira aula, o curso é uma extensão da terapia. Descobri que autoficção é um exercício de autoconhecimento, neste caso, feito em grupo formado por pessoas com a mesma vontade de transformar lembranças em histórias e de aprender a preencher os vazios de memória com letras.
A autoficção ocupa agora os instantes de inspiração ao longo da semana e as minhas noites de segunda. Por isso, a terapia temporariamente acontece em horário alternativo, em quintas alternadas. Lá continuamos a tratar de expansão, sem esconder a empolgação com o primeiro tiro: certeiro. Ela diz que eu encontrei a minha turma e eu não posso dizer que foi tarde: aos 37 anos, sou um dos mais novos aprendizes. Enquanto ela fica com uma boa quantidade dos marcadores de livro para divulgar o blog, eu fico imaginando quanta ficção preenche aquele consultório de releituras biográficas.
Não nego a ansiedade pela próxima aula, porque hoje, talvez pela primeira vez, a vontade supera a inibição: quero expor para depois reescrever. E para escrever melhor, preciso das críticas, quero ouvir o que dizem os colegas e a nossa orientadora, com mais esperança do que vergonha.
Aqui, alguma autocrítica me leva a questionar por que não vejo traço da ficção de que trata o curso e que promete o título. Só encontro uma explicação: se tudo o que escrevi é fato, os vazios foram preenchidos, também com letras, fora do texto.

domingo, 4 de setembro de 2011

Foi assim



Hoje, compartilho um texto alheio. Adorei esta crônica da Cacau Vilardo e penso que tem tudo a ver com meus diários bordados. O livro a que ela se refere, Fico à espera, é uma belezinha de autoria dos franceses Davide Cali e Serge Bloch, publicada no Brasil pela editora Cosac Naify.  

FOI ASSIM
Por Cacau Vilardo

Para Sandra

“No princípio, Deus criou o céu e a terra (...)”

De manhã, bem cedo, o telefone tocou. Andei até este com a certeza do que ia ouvir. Cada passo contava um ano. 56 anos. 39 anos dos quais eu convivi.

Olha pra mim, no meu olho. Sua pálpebra se levantou. Seus olhos bastante amarelados me revelaram que aquela seria a nossa despedida. Eu te amo.
- Alô.
Ela se foi. Às 7:42h. O dia estava lindo. Corações flutuavam no céu. Ela soube escolher bem. Dia dos namorados.
Minha pequena filha me observou durante a curta conversa ao telefone. Quando acabei, ela pegou um livro.
- Mamãe, lê pra mim?
“Fico à espera...”
(Não posso. Não vou conseguir.)
- Filha, deixa a Juliana ler.
- Não, mamãe, você.
Abri o livro. Lá estava o fio. Vermelho. Rompido na página 43.
Segura aí meu Deus, segura aí a minha partida. Esse era seu pedido. Falava rindo. E nos fazendo rir. Eu não quero ir agora. Os médicos haviam dado a ela 5, 6 meses de vida. Já se passavam mais de 4 anos. Ainda tenho muita coisa a fazer. Segura aí.  Esperou o casamento da filha caçula.  Depois, o nascimento do quinto neto.

- Mamãe, por que o fio está cortado aqui?
- Porque a mulher desse moço estava muito doente e virou estrelinha.
- Mamãe, ela morreu?
- Morreu.
Três semanas antes, ela contrariou a mãe e os médicos. Apesar do corpo amarelo, da respiração difícil, das dores, fomos a uma festa. Era a sua vontade. Ela dançou. E sorriu. Muito. Abraçou todas as amigas do ballet. E dançou mais. E sorriu mais. Vamos embora? Está ficando muito frio. Ela quis ficar. Quis esperar o bolo.
Eu ainda estava diante da mesma ilustração. Impactada pelo fio rompido. Eu não conseguia virar a página. Fechei o livro.
- Mamãe, a fada Sininho é uma estrelinha?
- Sim, filha, a gente pode dizer que sim. Ela é um tipo de estrelinha. Ela brilha e tem asas.
Tô aqui na Disney com os netos. Quero saber que fantasia eu compro pra minha sobrinha. Ela tinha ido. Fazia tudo que os médicos sugeriam a ela não fazer. Seguia suas vontades.
- Mamãe, veste em mim a fantasia da Sininho?
Claro. Eu me levantei. Senti o peso do meu corpo. Eu estava cansada. As últimas semanas haviam sido muito difíceis. Eu precisava de um banho. Longo. Vesti um anel. Grande. De coração. Um que eu tinha certeza que ela ia gostar. Fui ao hospital. Ela estava no quarto 30. Deitada. Toda de branco. E sorrindo. Linda.
- Missão cumprida, minha irmã. Hora de descanso.
Era domingo.
“(...)E Deus acabou no sétimo dia a obra que tinha feito.E abençoou o dia sétimo e o santificou, porque nele tinha cessado de toda a sua obra, que tinha criado e feito.”

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

De reescrituras

Esta noite reli o conjunto das crônicas deste blog e hoje pensei numa delas, “Aula de Português 2”. De fato, dona Sônia sugeriu o exercício da reescritura e senti um gosto que ainda trago na boca. Tinha 11, 12 anos.
Até hoje, gosto tanto de lavrar a palavra que vivo reescrevendo mentalmente o que leio. Frases em outdoors, manchetes de jornais, títulos de livros... O exercício da reescritura parece natural, e mesmo trabalhos de revisão/copidesque podem me trazer o tal gosto à boca.
Sei lá porque estou lembrando essas coisas, mas este blog também existe para que eu me descubra. Insisto:
Numa fase, adorava assistir a programas de entrevistas com escritores. Num deles, domingo à noite, Leda Nagle entrevistava Nélida Piñon. No fim, naquela parte em que o jornalista costuma perguntar que conselho o entrevistado daria para jovens escritores, Nélida enfatizou a busca pela “palavra exata”. Então, imaginei meu futuro como um longo e saboroso caminho de reescrituras. Tinha 19 anos, vinte.
Claro que não se chega à palavra exata, e imagino que Nélida se referisse a esta impossibilidade. Porque se você sabe que não vai encontrar e mesmo assim busca, encontra outra coisa – mas encontra. Sei lá porque estou lembrando essas coisas, mas este blog também existe para que eu me descubra. E insisto e me lembro:
Sábado resgatei um texto, da pasta do computador para a impressão em papel. Foi escrito entre 2000 e 2004 e também se chama Diários bordados. Comecei a escrevê-lo porque vivia um cotidiano que não me servia mais. Terminei assim:

Hoje não estou mais ali, hoje eu quero mais. Eu quis sair dali. Eu quis vir embora, como fazem tantas pessoas que temos por perto e, quando nos damos conta, já foram. Eu não tinha saco para talher de peixe porque sentia falta de outras maneiras, não caibo em regras, eu as bagunço. A minha fome não combina com um tratado de etiqueta. O que é, mãe? Mãe é o que eu estou chamando de mãe, outra hora falo mãe designando uma outra coisa. Nomes, mamas, fatos.
Dizem que as palavras não dão conta da realidade, mas eu digo que dão. Porque uma palavra não é só uma palavra: é uma palavra usada no meio de outras com essa e com aquela intenção. Palavra pode tudo, desde que desarrumada, despalavrada e repalavrada. Assim penso, assim faço, assim vivo: reescrevendo-as.

domingo, 7 de agosto de 2011

Defesa de tese, parte 2

            (CONTINUAÇÃO)
Perder o vínculo com a Puc, naquele momento, seria perder o terreno em que minha casa se projetava. Em meados de 2005, quando defendi a dissertação, a construção ainda iria começar. Num terreno que eu já perdera 15 anos antes, com a saída do Teresiano. E eu precisava de uma casa pra morar. Por isso pedi que o Renato supervisionasse as obras nos quatro anos seguintes, como meu orientador no doutorado.
            Meu objetivo não era necessariamente fazer uma tese. Eu só poderia estar ali como a pessoa que – por um triz – não continuou desabrigada. Fui então fazendo minha casa, que tomou a forma de um romance ensaístico. Minha tese é, também, uma extensa carta a Lygia Bojunga, uma resposta a alguém que me diz tanto há mais de trinta anos. É ainda um texto que me expõe, mas só para quem me visitar.
            E foi desta casa nova que, no mês anterior à defesa de tese, ouvi a notícia sobre o terremoto no Chile. Eu sabia que Lygia estava em Santiago, participando de um congresso. A imprensa ainda não tinha notícia de nenhum brasileiro. Santiago estava incomunicável e a Lygia estava lá. Era sábado, e fui me deitar depois de assistir ao Jornal Hoje. Acordei uma hora depois, com três imagens na cabeça:

            1a imagem: A boneca Emília, tapando os ouvidos para o que conta dona Benta sobre o desenlace de Dom Quixote. Ela então recria a história, de modo que o herói não morra.
            2a imagem: Raquel, em A bolsa amarela, o terceiro livro de Lygia. Ao perder um amigo, ela reescreve a história dele, de modo que ele não tenha morrido, mas viajado.
            3a imagem: Eu, diante da banca, no mês seguinte, durante a defesa. Defendendo o meu direito de não querer perder Lygia Bojunga de jeito nenhum. Defendendo meu direito de recriá-la morando numa casa que, se é de livro, é imune a terremotos, balas perdidas e novas tecnologias. Com a mulher, que mora nos livros, eu sei, eu tenho certeza, não vou perder o vínculo – de jeito nenhum.

domingo, 31 de julho de 2011

Defesa de tese, parte 1

                O ritual da defesa de tese costuma assombrar o doutorando pelos quatro anos do curso. Comigo não foi diferente: o que eu diria? Uma vez marcada a defesa, porém, tinha que decidir. Parei para pensar, e logo algumas imagens se passaram pela minha cabeça. Elas me disseram tanto que, um ano e meio depois, ainda as guardo comigo:

                1a imagem – De passagem, minha monografia sobre Iracema, escrita em meados de 2006, finalizando o primeiro semestre do período de doutorado. Foi o trabalho de conclusão do curso de Renato Cordeiro Gomes, meu orientador, sobre as narrativas da nação. Escolhi falar do romance de José de Alencar por tê-lo relido três vezes durante o curso, elegendo-o um de meus livros preferidos. Tratei de como a protagonista foi criada para perecer e deixar espaço ao filho Moacir, mas também de como ela pereceu a partir de uma atitude sua, legítima e deliberada. Uma escolha, uma opção por trair o que tinha de essencial. Ao cortar o vínculo com sua tribo, Iracema escolhia morrer.
                2a imagem – O espanto que provocara anos antes na professora Vera Follain, que me orientava no mestrado em Comunicação. Disse a ela que preferia o doutorado em Letras na Puc a outro qualquer. Por quê?, ela quis saber. Porque estudei no Teresiano... Vera não entendeu.
                3a imagem – A sensação de volta pra casa que passei a ter durante o curso de mestrado. Incentivada pelo que ouvia nas aulas, voltei a ler ficção com maior frequência, tanto quanto eu só tinha lido em criança.
                Por último, a 4a imagem – Meu reencontro com Lygia Bojunga, meses antes de entrar no mestrado, a partir do lançamento de Retratos de Carolina.

                Bom, diante do espanto da orientadora pela minha justificativa, tentei explicar melhor. Disse que jamais tinha sido tão feliz em algum lugar como fui no Colégio Teresiano, onde estudei dos dez aos 18 anos. Ali eu tinha condições de ser quem desejava ser: adorava estudar e tinha o espaço ideal para isso; adorava assistir a aulas e tinha professores ótimos; precisava levantar o dedo para pedir a palavra e fazia isso à vontade; precisava ir adiante e ali eu podia. No Teresiano, eu tinha amigos que admirava e que me admiravam. E sabia que podia contar com os professores, que amava.
                Minha saída do colégio para a UFRJ não foi muito agradável. Me senti tão frustrada que cheguei a lamentar o êxito no vestibular. E, ao dizer sem pensar, sem querer, ao ouvir-me dizer que preferia o doutorado em Letras na Puc a qualquer outro, entendi algo importante. Entendi que, somente no mestrado, 15 anos depois da formatura no 2o grau, vinha sentindo algo que se aproximava do que sentira no colégio. E não queria perder isso, eu não queria perder o vínculo com a Puc de jeito nenhum.
(CONTINUA NA SEMANA QUE VEM)

domingo, 24 de julho de 2011

De Casas e Lígias

Minha mãe falou muitas vezes sobre a diferença que uma dona de casa faz numa casa. A casa de quem não trabalha fora seria mais aconchegante. Se a mulher se dedica sobretudo ao lar, minha mãe dizia, ele fica muito mais gostoso. Evidentemente não se pode concordar em termos absolutos, mas a observação faz sentido, sim. Voltei de Curitiba pensando nisso, pois a atmosfera de aconchego na casa da minha prima é muito particular. Lígia se dedica sobretudo à família, grande, à qual não para de agregar novas pessoas. O sobrinho que já morou com ela é filho, a mulher dele é nora, o irmão do marido é seu protegido e os pais, idosos, nem se fala.
Quando cheguei, na segunda-feira, a netinha da Lígia estava na UTI. Isabela, aos cinco meses de idade, contraíra uma infecção pulmonar, cujo desenrolar ainda era desconhecido. Mesmo assim, fui recebida com graça e pedidos de que não fizesse cerimônia, porque as atenções estavam no hospital. Mesmo assim, a geladeira repleta e a sopa no fogão. A sopa era tão boa que, no terceiro dia, já saí do congresso com a cabeça nela. Foi no terceiro dia também que a nenem passou da UTI ao quarto do hospital. No quinto dia, quando eu tinha uma folga para passear, fiquei dividida entre conhecer a cidade e curtir a casa. Acabei dividindo o dia entre as duas coisas... O frio de Curitiba pode ter contribuído: na casa da Lígia, fui acolhida demais.
                Estava lá para o congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada). No simpósio sobre Formação do Leitor, apresentei um artigo sobre Lygia Bojunga. A escritora, de cuja obra tratei na minha tese de doutorado, trabalha de diversas formas com a metáfora da casa. Desde A casa da madrinha, livro lançado nos anos setenta, até o nome da sua editora, criada há nove anos (Casa Lygia Bojunga), a casa tem em Lygia um sentido inesgotável. Aliás, no texto que levei para apresentar no congresso, eu chamava a atenção para a imagem da primeira orelha de cada um dos livros dela: um livro aberto em forma triangular, servindo de telhado para uma casa desenhada; no centro da casa, a fotografia da autora. É como se Lygia morasse no livro.
                Cheguei ontem de Curitiba e encontrei minha geladeira vazia, como de costume. Logo fui ao supermercado, de onde trouxe tudo e mais alguma coisa. Hoje tento escrever, porque no Rio também tem feito um frio danado.

domingo, 10 de julho de 2011

Carta a Antônia

No meu livro Para crescer (editora Escrita Fina), Antônia anda às voltas com o que chama de fim do mundo. Se todos diziam que o mundo iria acabar em 2000, a verdade é que o mundo dela, sim, acabou. Há vinte dias, conversei sobre o livro com alunos da nona série da Escola Alemã Corcovado, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Então soube que cada um tinha escrito uma carta a Antônia. De todas as redações, os próprios alunos escolheram uma para me mostrar. Seu autor, Felipe Carlos de Carvalho, criou um personagem, namorado da melhor amiga de Antônia, que mora em Nova Iorque. Ele escreve na véspera do Onze de Setembro:
Nova Iorque, 10/09/2001

Cara Antônia,
O que eu queria te dizer é que a vida continua. Fiquei sabendo da sua história pela Isadora. Eu sei que já passou muito tempo, mesmo assim, resolvi escrever. Obviamente o mundo não acabou, como muitos diziam que iria acontecer em 2000, entretanto pode até parecer que isso tenha ocorrido com você. Embora tenham ocorrido coisas com você que ninguém merece, sendo, na minha opinião, a pior delas a perda de uma pessoa querida, a vida continua. A vida vale a pena.
Já me fiz as mesmas perguntas que você se fez e cheguei à conclusão de que temos apenas que aproveitar nossos momentos na Terra. Além do mais, mesmo não sendo religioso, não acredito que todas as perguntas serão respondidas.  Apesar disso continuo me fazendo perguntas que vão além das outras, como: precisamos de um motivo para viver?
Aliás, não sabemos o que virá depois. Talvez sua mãe tenha feito a escolha certa, mas eu prefiro esperar até que minha hora chegue. Mesmo com o sofrimento, também temos as alegrias da vida, por isso acredito que não estaria pronto para partir. Prefiro não encurtar meu tempo. Nós, que não somos fiéis à religião e que não acreditamos em destino, continuaremos nos fazendo perguntas sem respostas. É apenas importante que aproveite a vida.
Trabalho no World Trade Center em Nova Iorque e sou brasileiro. Isadora e eu nos conhecemos lá e não sei se você ficou sabendo, mas estamos namorando. Quando soube da sua situação, fiquei feliz em poder lhe escrever.
Boa sorte na sua carreira e nunca se esqueça: aproveite a vida, já que ela pode acabar a qualquer momento.
Beijos,
Felipe.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Do professor de Português

Eu tinha 17 anos quando Nelson Santieve me chamou para conversar. Ele me disse que eu tinha vocação literária e que devia encará-la como uma missão, independentemente do rumo profissional que eu tomasse. Afirmou ainda que sabia o que dizia, pois contava 39 anos de magistério.
Talvez seja uma das primeiras cenas da minha memória em que sou a protagonista. Eu ouvindo aquele homem, cujo tempo de profissão passava do dobro da minha idade. Aquele homem com quem eu conversava sobre Clarice Lispector. E que tinha sido aluno de Manuel Bandeira no Colégio Pedro II. 
Em seguida eu me formaria no Colégio Teresiano e correria, muitas vezes, o risco de perder a cena para outras personagens. Meu professor de Português, porém, sabia a importância da conversa à qual dera um tom solene. A literatura como missão. Os cadernos que se acumulavam ao longo dos anos. As leituras que se somavam.
Eu me exercitava, mas não chegava a escrever como queria. Em torno dos trinta anos, ainda não tinha os resultados esperados. Sentia-me longe da escritora que desejava ser, aquela apontada por Santieve na sala de aula. Mesmo assim, jamais passou por minha cabeça desistir.
Tenho pensado nisso há uns dias, desde que li (finalmente!) O filho eterno, de Cristóvão Tezza: “Ele não sabe ainda, mas bastou um breve fiapo de realidade mais difícil para que se apurasse seu senso de literatura”, afirma o narrador sobre o protagonista, um escritor de vinte e tantos anos, que sofre pelo nascimento de um filho com síndrome de Down.
Algo semelhante se deu comigo, a partir do câncer cerebral de minha mãe. Entre a descoberta da doença, em abril de 2002, e a morte dela, dez meses depois, meu corpo compreendeu a urgência da escrita. Aos trinta e poucos anos, eu me tornei a escritora que Santieve antevira. Desde então, escrevo para manter o lugar de protagonista entre as outras personagens, ou possibilidades, que me habitam. Escrevo por me escolher.

sexta-feira, 25 de março de 2011

"É o traço autobiográfico que dá vida ao texto"

O projeto Rodas de Leitura, criado e coordenado por Suzana Vargas, da Estação das Letras, já existe há quase vinte anos. Com algumas interrupções, tem promovido encontros mensais entre milhares de leitores e centenas de escritores. Em janeiro de 2003, foi a vez de Lygia Bojunga, que lançava o romance Retratos de Carolina. Da plateia, partiu uma pergunta sobre os livros de Harry Potter. Ela disse que não tinha lido nenhum e que não pretendia ler. Outras pessoas elogiaram bastante a série. A escritora fechou a questão assim: “Mas é uma receita?”.
Na hora, achei exagerado o desprezo pela “receita”. Afinal, nos dois primeiros livros que lançou, Lygia seguiu uma à risca. Depois de anos escrevendo para rádio e televisão, usou as regras aprendidas e deu show. Ela mesma fala desse trabalho no primeiro livro de memórias: “Mas nesse tempo [em que trabalhava para rádio] o meu envolvimento com a escrita não mexia o fundo de mim; era um jeito aprendido de escrever, digamos assim; eu lia e observava como é que se escrevia pra rádio e depois seguia o modelo. Quando eu passei a traduzir, adaptar e escrever peças para a televisão, eu fazia a mesma coisa; e só lia livros de peças ou de como escrever pra tevê…” [1].
                Ao fechar a questão sobre o bestseller daquela maneira, porém, ela abriu este  caminho de reflexão por onde sigo. Enquanto escrevia minha tese sobre sua obra, levei horas folheando juvenis norte-americanos publicados em série. No capítulo sete, eu queria avançar na reflexão sobre a “receita” mencionada, mas não consegui. É difícil definir o limite entre a repetição da técnica aprendida, como talvez aconteça em Harry Potter, e o uso da técnica para enunciar algo novo, como certamente acontece em Os colegas e Angélica, primeiros livros de Lygia.
                Defendi minha tese há um ano, mas foi há poucos dias, num Rodas de Leitura, que pude dar um passo naquela questão. Milton Hatoum iluminou meu caminho: “É o traço autobiográfico que dá vida ao texto, que dá a verdade que o leitor procura”, afirmou. (Não, eu não estou sugerindo que os dois primeiros livros de Lygia sejam autobiográficos, até porque o primeiro conta a história de três cachorros, um coelho e um urso e o segundo fala de uma cegonha que fugiu de casa e conquistou o coração de um porco... Mas o espaço acabou e continuo outra hora.)



[1] In: Nunes, Lygia Bojunga. Livro, um encontro com Lygia Bojunga Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 1988, p. 49.


sexta-feira, 18 de março de 2011

"Não vale a pena escrever com pressa"

Costumo avisar no primeiro dia de aula que meu limite é o caderno. Ao dar um curso de criação literária, o que eu quero é compartilhar experiência. E o que eu conheço é o caderno. Este é o espaço onde me sinto à vontade e minha escrita faz sentido. É o que tenho para compartilhar. E tenho mesmo. Sempre escrevi. No caderno.
Recentemente passei a valorizar essa prática devido ao excesso de movimentação no mercado editorial. Publica-se demais. As livrarias não têm espaço nem condições gerais de manter tanto estocado e muitos comemoram a chegada do e-book... Aceleração maior à vista. Em meio às discussões sobre novas tecnologias, eu me pergunto sobre o espaço da literatura hoje.
Sim, é um problema. Porque a literatura está ao lado do silêncio. E atualmente faz-se muito barulho por todos os lados.
Parece que o escritor Milton Hatoum tem preocupação semelhante. Segunda-feira passada, ele conversou com leitores no projeto Rodas de Leitura, que a Estação das Letras promove mensalmente, no Rio de Janeiro. Aos quase 60 anos e com cinco livros publicados, afirmou: “Hoje há uma pletora, todo mundo é escritor. Nisso realmente falta crítica. Não vale a pena escrever com pressa e publicar qualquer coisa”.
Ele mesmo já escreveu um livro que preferiu não publicar. Segundo contou, seu primeiro romance teria setecentas páginas.  Anos depois, tempo passado e perspectiva possível, o original resultou em Dois irmãos, romance de duzentas páginas que, publicado em 2000, já é considerado um clássico por parte da crítica. O autor, porém, recusa o elogio: “Começaram a dizer que Dois irmãos era um clássico por causa de uma matéria do Paulo Roberto Pires no Globo que falava em clássico instantâneo. Mas não acredito nisso”.
Para um livro tornar-se clássico é preciso tempo, perspectiva histórica. Um livro atual não pode já ser um clássico. Mas provavelmente ao classificar Dois irmãos assim, inventando um híbrido clássico-contemporâneo, o crítico distinguia o livro dos demais lançamentos. Provavelmente também, pelo tempo de sua gestação. O tempo de escrever um original gigante e deixá-lo de lado para, anos depois, transformá-lo num romance bem menor. No caso, escrever sem pressa valeu literalmente a pena.