sábado, 11 de dezembro de 2010

Mais perto do coração

Durante muitos anos, intrigou-me a frase de Clarice: “Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras”. Pois eu sentia um grande barulho dentro de mim, e escrever era tentar silenciá-lo. Como se muitas vozes, muitos caminhos de fala, pudessem ser domados pela escrita. Como se eu precisasse escrever para ouvir a minha fala verdadeira. Tanto barulho me fez gostar muito de silêncio. Faz vinte anos que passo períodos sem ouvir música ou ligar a televisão. É uma forma de ouvir apenas o essencial. Isso que pode escapar se não receber a devida atenção.
Consequentemente, tem sido importante para mim morar sozinha. Minha gata, que aliás se chama Clarice Lispector, também não é de barulho. Engraçado que pouco me incomodam os ruídos externos. Música no vizinho ou buzina de carro só interferem em caso de exagero. Se eu sei que não é comigo, parece que nem escuto. Para me ouvir bem, preciso é estar sozinha. Nas fases radicais, já fiz compras que bastassem para não sair por alguns dias, desliguei os telefones e me liguei no que tinha a escrever. Foi bom.
Faz algum tempo, três ou quatro anos, notei a mudança. O barulho de antes, o interno, já não é mais frequente. Talvez eu tenha conseguido um estado de concentração prolongado, uma vantagem da idade. O fato é que o tal silêncio, fonte das palavras, passou a fazer sentido. Hoje sinto que não tenho nada a dizer. E por isso luto para inventar alguma coisa. Eu preciso inventar alguma coisa para não sucumbir ao nada. Por isso escrevo.
A citação de Clarice é da crônica “Anonimato”, publicada em A descoberta do mundo. No mesmo livro, na crônica “Escrever”, ela conta que escreveu desde pequena, mas “tomou posse da vontade” de fazê-lo aos 13 anos. Então, viu-se num “vácuo”, sem ninguém para ajudar: “Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar, por assim dizer, a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo.”
Porque a gente começa mesmo pelo meio. Basta dar uma chance ao próprio texto que ele se mostra em pleno desenvolvimento. Mas eu estava longe disso quando, aos 19 anos, me intriguei por Clarice considerar o silêncio fonte das palavras. Para mim, era o contrário. Eu escrevia para buscar o silêncio. Era como se muitas vozes tagarelassem na minha cabeça. Com tanto barulho, não dava para ouvir a minha voz. O que eu tinha a dizer? A citação de Clarice me intrigou por anos, até que cheguei ao silêncio. Então, se eu escrevia em busca de um silêncio que encontrei, hoje escrevo para não sucumbir a ele.

2 comentários:

  1. Texto poético e sincero. Adorei! Clarice a inspirou, de verdade.
    Dag Bandeira

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  2. Aninha, muito sincero. Conheço bem estes períodos de silêncio, de desligar até mesmo o telefone!!!
    :)
    Adorei o texto.
    Beijos, Ilana

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