sábado, 18 de dezembro de 2010

As solitárias

A capa de Tchau, reunião de contos de Lygia Bojunga, reproduz A solitária, quadro do pintor norueguês Edvard Munch. Trata-se da imagem de uma mulher de costas, contemplando o mar à frente. Ao levar o livro para sua editora, a própria Lygia foi a responsável pela escolha da capa, substituindo a imagem das edições anteriores, um desenho de mar. Segundo descreve no prefácio, o quadro a intriga por “(...) um cinto prendendo uma cabeleira vigorosa numa cintura delicada; um olhar que, mesmo a gente não vendo, a gente vê perdido no horizonte; a brancura intensa de uma veste, acentuando dúvidas: é uma adolescente? uma mulher? uma noiva? um fantasma?; e, em volta da figura: sombras? pedras? areias? rochedos?”. Ela diz ainda que, ao contemplar A solitária pela primeira vez, sentiu os personagens de Tchau despertarem na sua memória, anos depois do livro lançado.
De fato, nas quatro histórias, o mar serve de contraponto à dor pela tomada de consciência da solidão. Enquanto esta chega, aquele oferece um horizonte novo. A menina de “A troca e a tarefa”, por exemplo, sente-se oprimida durante a festa de seus 15 anos. Chega a trancar-se no quarto, querendo morrer. Depois de chorar, pula a janela e corre: “Lá na praia tinha pouca estrela, barulho manso de onda e a lua era quarto minguante. Tirei o sapato e fui pela areia. Já ia entrando no mar. Mas senti medo. Dei pra trás. Me deitei na areia e fiquei lá tanto tempo que acabei dormindo.”
É semelhante o que se passa com a criança Joana, em Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector. Tendo perdido o pai, a única pessoa que amava e por quem era amada, ela precisa escapar do abraço incoveniente da tia, com quem passava a viver: “Antes que pudesse fazer qualquer movimento de defesa, Joana foi sepultada entre aquelas duas massas de carne macia e quente que tremiam com os soluços.” Enojada dos seios que a sufocam e da casa de paredes grossas, onde passava a morar, empurra a porta pesada e corre: “Desceu as rochas, caminhou fracamente pela praia solitária até receber a água nos pés. De cócoras, as pernas trêmulas, bebeu um pouco de mar. Assim ficou descansando. Às vezes entrefechava os olhos, bem a nível do mar e vacilava, tão aguda era a visão – apenas a linha verde comprida, unindo seus olhos à água infinitamente”.
Solitária e de olho na linha do horizonte, Joana se dá um tempo para pensar. Numa tentativa de autoconsolo, lembra-se do que teria na sua nova vida, sem o pai e vivendo com os tios: “Mas sobretudo aquele galinheiro velho sem galinhas. O cheiro era de cal e de porcarias e de coisa secando. Mas podia-se ficar lá dentro sentada, bem junto do chão, vendo a terra. A terra feita de tantos pedaços que doía a cabeça de uma pessoa pensar em quantos. O galinheiro tinha grades e tudo, seria a casa dela.” Coincidência curiosa, aos seis anos Lygia adotou como “casa” um galinheiro desativado, na chácara onde passava o verão: “Um pedaço dele tinha desabado. Mas o resto do galinheiro me pareceu ótimo, tipo do espaço bom pra eu fazer ´uma minha casa`. Pedi pro meu pai, e o meu pai me deu”, ela conta em  Feito à mão, livro de memórias.
Porque novos horizontes havia também na imaginação - que ganhava espaço na solidão das meninas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Mais perto do coração

Durante muitos anos, intrigou-me a frase de Clarice: “Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras”. Pois eu sentia um grande barulho dentro de mim, e escrever era tentar silenciá-lo. Como se muitas vozes, muitos caminhos de fala, pudessem ser domados pela escrita. Como se eu precisasse escrever para ouvir a minha fala verdadeira. Tanto barulho me fez gostar muito de silêncio. Faz vinte anos que passo períodos sem ouvir música ou ligar a televisão. É uma forma de ouvir apenas o essencial. Isso que pode escapar se não receber a devida atenção.
Consequentemente, tem sido importante para mim morar sozinha. Minha gata, que aliás se chama Clarice Lispector, também não é de barulho. Engraçado que pouco me incomodam os ruídos externos. Música no vizinho ou buzina de carro só interferem em caso de exagero. Se eu sei que não é comigo, parece que nem escuto. Para me ouvir bem, preciso é estar sozinha. Nas fases radicais, já fiz compras que bastassem para não sair por alguns dias, desliguei os telefones e me liguei no que tinha a escrever. Foi bom.
Faz algum tempo, três ou quatro anos, notei a mudança. O barulho de antes, o interno, já não é mais frequente. Talvez eu tenha conseguido um estado de concentração prolongado, uma vantagem da idade. O fato é que o tal silêncio, fonte das palavras, passou a fazer sentido. Hoje sinto que não tenho nada a dizer. E por isso luto para inventar alguma coisa. Eu preciso inventar alguma coisa para não sucumbir ao nada. Por isso escrevo.
A citação de Clarice é da crônica “Anonimato”, publicada em A descoberta do mundo. No mesmo livro, na crônica “Escrever”, ela conta que escreveu desde pequena, mas “tomou posse da vontade” de fazê-lo aos 13 anos. Então, viu-se num “vácuo”, sem ninguém para ajudar: “Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar, por assim dizer, a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo.”
Porque a gente começa mesmo pelo meio. Basta dar uma chance ao próprio texto que ele se mostra em pleno desenvolvimento. Mas eu estava longe disso quando, aos 19 anos, me intriguei por Clarice considerar o silêncio fonte das palavras. Para mim, era o contrário. Eu escrevia para buscar o silêncio. Era como se muitas vozes tagarelassem na minha cabeça. Com tanto barulho, não dava para ouvir a minha voz. O que eu tinha a dizer? A citação de Clarice me intrigou por anos, até que cheguei ao silêncio. Então, se eu escrevia em busca de um silêncio que encontrei, hoje escrevo para não sucumbir a ele.