domingo, 14 de novembro de 2010

De troca e de tarefa

No conto “A troca e a tarefa”, de Lygia Bojunga, uma escritora revela que, desde criança, “transforma” elementos da vida particular em ficção. De forma figurada, diz que se deu conta, aos nove anos, do ciúme que sentia da irmã mais velha. Adolescente, entusiasma-se por um rapaz que lhe inspira o primeiro escrito. Logo, porém, ele torna-se noivo justamente da tal irmã. A narradora desespera-se, até que um sonho muda sua vida. Nele, uma voz aconselha: “Escreve a história dessa dor e eu te livro dela. É uma troca: eu te prometo.” Ela aceita e escreve um romance: “Então, quando a história ficou pronta, a vontade de morrer tinha sumido; o amor pelo Omar também: no lugar deles agora só tinha a história deles”. O ciúme da irmã, porém, continuou. Procurou “transformá-lo”: “Tudo o que o Ciúme tinha feito eu sofrer eu transformei em aventuras que acontenciam com aquele pássaro”. Foi a origem do segundo livro. Passou então ao terceiro, ao quarto...
Quem escreve sabe. O poder transformador da palavra nunca decepciona. Experimenta-se uma vez a alegria de “transformar” e sempre se quer repetir. A troca, porém, é exigente quanto à tarefa. Se o ciúme tem bastante força para angustiar a jovem autora, exigirá muito empenho nos vôos do pássaro que ela inventar. O empenho é, aliás, a chave: “Cada hora de recreio, cada domingo inteiro, cada hora-de-fazer-dever eu escrevia a história da minha vontade de morrer. E fui achando tão difícil de fazer que, em vez de sentir vontade de morrer, eu só pensava como é que se fazia a história de uma vontade de morrer; em vez de sentir a dor do amor, eu só sentia a força que eu fazia pra contar a dor”, explica a personagem.
“A troca e a tarefa” é um dos quatro contos do livro Tchau, lançado em 1984 e, atualmente, editado pela Casa Lygia Bojunga. No texto de abertura, acrescentado em 2003, Lygia diz que, para começar a escrever, precisa “de um estímulo que, feito um palito de fósforo, risque a minha imaginação produzindo a faísca que vai clarear o caminho. É a partir desse risco que eu crio, que eu procuro dar vida aos meus personagens e, se consigo, eles passam a dar vida a meus livros”. No conto em questão, “o palito de fósforo” costumava ser um motivo de angústia na vida particular, que seria “transformado” em ficção, pela palavra criativa. A personagem escreveu, desde menina, para fazer a dor passar.
Acredito que inicialmente seja sempre assim: alguém se torna escritor no ato de  “transformar” o que não lhe serve. Na sequência, contudo, o texto vai além: provoca uma troca com o leitor, que se transforma, ele também, pela palavra criativa. Nesta perspectiva, a tarefa do escritor parece pertencer ao campo da solidariedade. Ainda que o “palito de fósforo” seja a imagem no espelho.

3 comentários:

  1. Parabéns, Ana Letícia, pela sua entrada na Blogosfera. Só hoje tomei conhecimento da sua chegada e apressei-me a fazer-lhe uma visita. Estou certo que terei muito o que aprender com a sua escrita e o seu exemplo de batalhadora.
    Com um abraço, Luigi

    ResponderExcluir
  2. Como é bom te ler!

    beijões

    Hanna

    ResponderExcluir
  3. parabens Ana Leticia

    ResponderExcluir

É mais fácil entrar como "Anônimo" e assinar abaixo do comentário. Obrigada!